O Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (325) e a contribuição dos Padres Capadócios na formulação do Credo

Arcebispo Hierotheos
Metropolita de Nafpaktos e de São Vlasios

Este ano celebramos o 1700º aniversário da convocação do Primeiro Concílio Ecumênico, que foi realizado em 325 d.C. em Niceia, na Bitínia (hoje, Turquia), para enfrentar a heresia de Ário. Ário, partindo dos princípios da filosofia grega, defendia que o Filho e Verbo de Deus era a primeira criação do Pai e que “houve um tempo em que Ele não existia”, ou seja, havia um momento em que o Filho não existia, sendo, portanto, uma criatura do Pai, criada por Sua vontade. Os Padres do Primeiro Concílio Ecumênico condenaram a heresia de Ário e redigiram os primeiros sete (7) artigos do Credo, o conhecido “Creio”.

Quando foi convocado o Primeiro Concílio Ecumênico, São Basílio, o Grande, ainda não havia nascido; ele nasceu cinco anos depois do Concílio, em 330. São Gregório, o Teólogo, nasceu em 329, quatro anos após o Concílio, e São Gregório de Nissa também ainda não havia nascido, pois veio ao mundo dez anos depois, em 335. Os três eram capadócios e tornaram-se representantes da chamada teologia capadócia. Eles aceitaram as decisões do Primeiro Concílio Ecumênico e desempenharam um papel fundamental na sua consolidação. Além disso, tiveram uma participação significativa nas decisões do Segundo Concílio Ecumênico, realizado em Constantinopla no ano 381 d.C., que completou o Credo formulado pelo Primeiro Concílio Ecumênico, razão pela qual é chamado de Credo de Niceno-Constantinopolitano.

Especificamente, o ensinamento de São Basílio, o Grande, influenciou significativamente as decisões do Segundo Concílio Ecumênico, embora ele tenha falecido dois anos antes de sua convocação, em 379. São Gregório, o Teólogo, chegou a ser presidente do Segundo Concílio Ecumênico por um período, mas depois renunciou. São Gregório de Nissa atuou como secretário desse Concílio e contribuiu tanto para a formulação dos seus decretos quanto para a sua consolidação. Além disso, São João Crisóstomo nasceu em 349, cerca de 24 anos após o Primeiro Concílio Ecumênico. Ele não participou do Segundo Concílio Ecumênico, mas desempenhou um papel fundamental na aceitação das suas decisões entre o povo, graças ao seu extraordinário dom de pregador.

Na apresentação de hoje, abordarei as decisões do Primeiro Concílio Ecumênico, os acontecimentos que se seguiram e a significativa contribuição de São Basílio, o Grande, de São Gregório, o Teólogo, e de São Gregório de Nissa. Por um lado, eles desempenharam um papel fundamental na aceitação das decisões desse Concílio; por outro, prepararam o caminho para o Segundo Concílio Ecumênico, que completou a obra do Primeiro ao finalizar a formulação do Credo. Este é um tema muito interessante sob diversos aspectos e é dedicado aos Padres da Igreja, que são os sucessores dos Santos Apóstolos.

Portanto, dividirei o tema em três partes: 1)A decisão do Primeiro Concílio Ecumênico, a condenação das visões heréticas de Ário e a definição ortodoxa sobre a divindade do Verbo de Deus. 2)Os acontecimentos que ocorreram no período entre o Primeiro e o Segundo Concílio Ecumênico. 3) A contribuição teológica dos Padres Capadócios – São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São Gregório de Nissa – na formulação da teologia ortodoxa.

Trata-se de uma abordagem histórico-teológica, na qual ficará evidente a diferença entre os teólogos de orientação filosófica e os grandes teólogos empíricos, que são os Padres da Igreja.

1. A decisão do Primeiro Concílio Ecumênico sobre a Divindade do Filho e Verbo de Deus

O Pe. Dr. João Romanides, eminente teólogo dogmático e professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Tessalônica, fez uma análise original e brilhante sobre como Ário e os arianos chegaram a negar a divindade do Verbo de Deus. Na Síria dos séculos II e III d.C., havia filósofos que seguiam a filosofia aristotélica, a qual abordava o princípio da entelequia. Segundo esse princípio, tudo o que é mutável possui um estado de potência e um de ato, o que significa que o que é mutável se aperfeiçoa ao passar do estado de potência ao de ato. No entanto, esse princípio não se aplica ao que é imutável, ou seja, ao Ser, pois este já é perfeito por natureza e não necessita de aperfeiçoamento. Naquele período, os teólogos cristãos argumentavam, em debates com os filósofos, que Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo), ou seja, o mundo não existia anteriormente e foi criado pela vontade de Deus. Os filósofos, por sua vez, contra-argumentavam que, se Deus criou o mundo sem que ele existisse previamente, então Deus não é perfeito, mas mutável, pois teria criado o mundo para se aperfeiçoar, de acordo com o princípio da entelequia – passando do estado de potência ao de ato.

Diante disso, os teólogos cristãos que dialogavam com a filosofia responderam com a doutrina da distinção entre essência e energia de Deus. Eles afirmaram que Deus possui essência e energia, sendo que, em sua essência, Ele é absolutamente livre e imutável, enquanto cria o mundo por meio de sua energia. Dessa forma, Deus não necessita do mundo, pois é absolutamente perfeito, autossuficiente e livre. Foi assim que a distinção entre essência e energia de Deus foi introduzida na teologia cristã sob uma perspectiva filosófica.

No entanto, posteriormente, os teólogos que dialogavam com a filosofia, tendo aceitado que Deus possui essência e energia, e usando essa teologia para enfrentar os filósofos no debate sobre a criação do mundo, passaram a investigar e interpretar as relações entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Paulo de Samósata, Bispo de Antioquia (cerca de 200-275 d.C.), identificava a essência de Deus com a hipóstase do Pai. Assim, segundo ele, existe uma única essência-hipóstase, que possui duas energias: o Filho e o Espírito Santo. Essa doutrina foi caracterizada como monarquianismo dinâmico e foi condenada pela Igreja no Sínodo de Antioquia no ano 268. Sabélio (século II-III d.C.) propôs o monarquianismo modalista, segundo o qual há um único Deus que se manifesta de três formas: como Pai, Filho e Espírito Santo. Seguindo a ideia de que o ser humano é uma única hipóstase com três designações – corpo, alma e espírito –, ele aplicou essa lógica a Deus, afirmando que Deus é uma unidade simples que possui três modos de ação: Pai, Filho e Espírito. Para expressar essa ideia, utilizou o termo pessoa, que havia sido introduzido primeiramente por Hipólito, no sentido de persona (máscara).

A heresia de Paulo de Samósata foi continuada por Luciano e seus discípulos, que ficaram conhecidos como lucianistas, e posteriormente por Ário. Segundo essa visão filosófica, no Deus Trinitário há uma única essência-hipóstase, o Pai, e o Logos, como energia do Pai que se encarnou. Assim, no homem nascido da Virgem Maria habita o Logos, que é uma energia incriada de Deus Pai, e não o Deus Logos como uma Pessoa distinta. Além disso, os discípulos de Paulo de Samósata e de Luciano, como Ário, adaptaram os ensinamentos do herege condenado, defendendo que Deus Pai cria o Logos por vontade e não gera por natureza, pois, segundo a filosofia aristotélica, o que é por natureza acontece por necessidade. Como Deus Pai é absolutamente livre e não está sujeito à necessidade, a relação entre o Pai e o Filho seria, segundo essa visão, baseada na energia e na vontade, e não na essência.

Dessa forma, Ário ensinava que o Filho foi criado no tempo pelo Pai, sendo a primeira criatura entre Deus e a matéria. Por isso, ele afirmava: “houve um tempo em que o Filho não existia”. Além disso, sustentava que o Filho era uma criatura de essência diferente do Pai (heteroousios), sujeito à mudança, ignorante em relação ao Pai, e que, depois do Filho, a segunda força criada seria o Espírito Santo.

Os Padres do Primeiro Concílio Ecumênico condenaram as heréticas doutrinas de Ário, como se evidencia no Símbolo da Fé do Concílio de Niceia, com as expressões: “O Filho de Deus”, “gerado do Pai, unigênito, isto é, da essência do Pai”, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, “que se encarnou e se fez homem”. Ao final do Símbolo da Fé, foram também registrados os anátemas contra as doutrinas arianas: “Aqueles que dizem: ‘houve um tempo em que Ele não existia’ e ‘antes de ser gerado, Ele não existia’ e que ‘Ele veio a existir a partir do nada’ ou que dizem que Ele é ‘de outra hipóstase’ ou ‘essência’, ou que afirmam que o Filho de Deus é ‘criado’, ‘mutável’ ou ‘sujeito à alteração’, a Igreja Católica e Apostólica os anatematiza”.

Os Padres do Concílio de Niceia, ao compor o Símbolo da Fé, tiveram em mente as fórmulas de confissão de fé locais e os credos batismais que já existiam, e, com base neles, formularam um novo credo para combater a heresia de Ário. São Atanásio, em um texto escrito entre 350 e 352, intitulado “Sobre o Concílio de Niceia”, faz uma análise detalhada das questões tratadas nesse Concílio e das heresias que foram condenadas. O grande Atanásio relata que, no início do Primeiro Concílio Ecumênico, os bispos desejaram afirmar que o Logos é a verdadeira força e imagem do Pai, semelhante e idêntico ao Pai em tudo, imutável e inseparável d’Ele. No entanto, houve oposição ao uso do termo “semelhante” (ὅμοιον), pois esse mesmo conceito também se aplicava ao homem, já que a Escritura diz que o ser humano foi criado “à imagem e glória de Deus”.

Para evitar qualquer ambiguidade, os Padres decidiram declarar com maior precisão que o Logos de Deus não é apenas semelhante ao Pai, mas consubstancial (ὁμοούσιος) ao Pai e inseparável d’Ele, algo que não ocorre com os seres humanos. Assim, as expressões “da essência do Pai” (ἐκ τῆς οὐσίας τοῦ Πατρός) e “consubstancial” (ὁμοούσιος) foram adotadas para refutar as heresias que afirmavam que o Filho era gerado no tempo (γενητός, com um “ν”), mutável (τρεπτός) e não existia antes de ser gerado (οὐκ ἦν πρίν γεννηθῆ). Quem não aceita essa doutrina se opõe ao Concílio. São Atanásio também preservou uma cópia da carta do Concílio de Niceia contra Ário e seus seguidores, enviada à Igreja de Alexandria, onde a doutrina ariana foi inicialmente propagada.

Nesta carta sinodal, são citadas expressões heréticas usadas por Ário, como: “O Filho de Deus veio do nada” (ἐξ οὐκ ὄντων εἶναι), “Antes de ser gerado, não existia” (πρίν γεννηθῆναι μή εἶναι), “Houve um tempo em que Ele não existia” (εἶναι ποτέ ὅτε οὐκ ἦν), “O Filho de Deus tem livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal, sendo chamado de criatura e obra do Pai”. Essa última afirmação tem um interesse especial, pois as criaturas têm livre arbítrio para aceitar o bem ou o mal, mas o Filho e Logos de Deus é incriado e, portanto, não pode ser considerado uma criatura sujeita a mutação moral.

2. Do Primeiro Concílio Ecumênico ao Segundo Concílio Ecumênico

O Primeiro Concílio Ecumênico condenou a heresia de Ário e confessou a verdade dogmática ortodoxa de que o Filho é consubstancial ao Pai, verdadeiro Deus, gerado e não criado, luz da luz, verdadeiro Deus, e que por meio d’Ele o mundo foi criado. E, embora se esperasse que as coisas se acalmassem, na verdade, a controvérsia se intensificou ainda mais. Os arianos continuaram a ensinar suas doutrinas e surgiram também os Pneumatomáquios, pois, juntamente com a sua crença de que o Filho era uma criatura, ensinavam que o Espírito Santo também era uma criatura. Isso também foi defendido por Macedônio de Constantinopla, razão pela qual seus seguidores foram chamados de Macedonianos. Além disso, Apolinário de Laodiceia (c. 310-360), seguindo a filosofia platônica e neoplatônica, que postulava que o ser humano é composto de corpo, alma e intelecto, ensinava que Cristo, ao encarnar, assumiu o corpo e a alma irracional, mas não a alma racional e livre (isto é, intelecto e espírito), pois, segundo ele, o lugar do intelecto foi ocupado pelo Verbo divino. Assim, ele negava a plena e perfeita natureza humana assumida pelo Filho e Verbo de Deus em sua encarnação. Além disso, Eunômio de Cízico (335-394 d.C.) e outros de mesma mentalidade, conhecidos como arianos “anomeus”, sustentavam que o Filho e o Espírito não tinham qualquer semelhança com o Pai e eram Seus servos mutáveis. Eles também identificavam a essência com a energia.

Essas novas heresias não eram apenas expressas teoricamente e de forma inofensiva, mas eram promovidas agressivamente contra os ortodoxos, especialmente contra Santo Atanásio, muitas vezes utilizando o poder político e, principalmente, sendo expressas em concílios. Isso significa que eram convocados concílios de bispos em várias partes do Império Romano, nos quais se formulavam doutrinas e até se criavam credos próprios. E, claro, entre essas heresias, havia também bispos ortodoxos que defendiam as decisões do Primeiro Concílio Ecumênico. Assim, surgiram dois extremos: os zelotes e os liberais-heréticos.

Entre o ano 325 d.C., quando foi realizado o Primeiro Concílio Ecumênico em Niceia, e o ano 381 d.C., quando foi convocado o Segundo Concílio Ecumênico em Constantinopla, ou seja, um intervalo de 56 anos, foram realizados aproximadamente 50 concílios importantes com opiniões divergentes, gerando confusão na Igreja. Os principais concílios dos arianos foram: Antioquia (entre 326-331), Cesareia (334), Tiro (335), Jerusalém (335), Constantinopla (336), Antioquia (341), Sirmio (351), Sirmio (357), Sirmio (359), Rimini na Itália e Selêucia na Isáuria (359). Os principais concílios ortodoxos foram: Gangra (entre 340-342), Sárdica (342 ou 343), Antioquia (344), Jerusalém (346), Mediolano (347), Cartago (348), Alexandria (362 e 363), Antioquia (363), Roma (371 ou 372), Icônio (376). Desses concílios, alguns eram ortodoxos e outros heréticos, alguns condenavam Santo Atanásio e outros o reabilitavam, alguns elaboravam novos credos e outros não. Percebe-se que, no período entre o Primeiro e o Segundo Concílio Ecumênico, durante 56 anos, houve muitos debates teológicos, grande agitação, numerosos concílios e a formulação de novos credos com diferenças entre eles. Até que, no Segundo Concílio Ecumênico, foi estabelecido o Credo completo que temos hoje, após algumas adições, exclusões e modificações no Credo de Niceia. Quando comparamos os dois Credos, do Primeiro e do Segundo Concílio Ecumênico, podemos notar as diferenças entre eles.
Especificamente: No Credo do Segundo Concílio Ecumênico, foi retirada, do segundo artigo, a frase do Primeiro Concílio Ecumênico: “isto é, da substância do Pai, Deus de Deus… as coisas no céu e as coisas na terra”, bem como foram removidas, no final, as anátemas: “Aqueles que dizem: ‘Houve um tempo em que Ele não era’ e ‘Ele não existia antes de ser gerado’ e que ‘Ele veio a existir do nada’, ou que afirmam que ‘Ele é de outra substância ou essência’, ou que dizem que ‘o Filho de Deus é criado’, ou ‘mutável’, ou ‘sujeito a mudança’, a Igreja Católica e Apostólica os anatematiza.” Foram acrescentados, no entanto, os outros sete artigos referentes ao Espírito Santo, à Igreja, ao Batismo, à ressurreição dos mortos e à vida futura, ou seja, os artigos: “E no Espírito Santo, o Senhor, o doador da vida, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, que falou pelos profetas. Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confesso um só batismo para a remissão dos pecados. Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro. Amém.”

Estas são as alterações ou acréscimos que foram feitos no Símbolo da Fé do Primeiro Concílio Ecumênico pelos Padres do Segundo Concílio Ecumênico, e agora temos o Símbolo da Fé completo. Essas mudanças ocorreram porque, ao longo das discussões teológicas, foi necessário esclarecer a terminologia sobre essas questões teológicas. Afinal, existe uma regra fundamental na teologia: uma coisa é a experiência reveladora, a participação na glória de Deus, e outra coisa é a formulação dessa experiência. Nesse trabalho, após o Primeiro Concílio Ecumênico, desempenharam um papel significativo os três Padres Capadócios: São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São Gregório de Nissa. Veremos isso resumidamente na terceira a seguir, o que demonstrará sua contribuição.

3. A contribuição teológica dos Padres Capadócios

No meio dessa turbulência teológica em que se encontrou a Igreja e dessa tormenta doutrinária que durou 56 anos, entre o Primeiro e o Segundo Concílio Ecumênico, surgiram grandes Padres, sábios mestres e teólogos poderosos: São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São Gregório de Nissa. Como capitães espirituais do navio da Igreja, enfrentaram essa tempestade e, com seus dons, sagacidade, conhecimento e, sobretudo, a iluminação de Deus, conseguiram completar o Símbolo da Fé e formular a teologia ortodoxa. Entretanto, durante esse período, foi necessário modificar a terminologia, aprofundar ainda mais o discurso revelador e travar grandes batalhas contra os teólogos influenciados pela filosofia, que eram hereges.

Os grandes Padres Capadócios partiram da experiência reveladora de Deus, assim como aconteceu com os Profetas e Apóstolos. Eles eram “iniciados pela experiência”, mas também possuíam a formação intelectual de sua época. Por outro lado, os teólogos influenciados pela filosofia baseavam-se apenas em pressupostos filosóficos para teologizar, seguindo Platão, Aristóteles e os neoplatônicos.

Veremos resumidamente qual foi a sua contribuição para a teologia e a Igreja.

Após o Primeiro Concílio Ecumênico, surgiram diversos hereges que contestavam o termo “homoousios” (consubstancial) utilizado pelo Concílio. Havia os “Anômios” ou “Aletriosianos” (ou “Heterousianos”), que afirmavam que o Filho possuía uma essência completamente diferente da do Pai. Também existiam os “Homoianos”, que tentavam conciliar os Anômios com os Homoousianos e sustentavam que o Pai e o Filho possuíam apenas uma semelhança externa entre si. Além disso, havia os “Homoiousianos”, que defendiam que o Filho era semelhante ao Pai em tudo, inclusive na essência, mas não admitiam que Ele fosse idêntico ou consubstancial ao Pai, rejeitando o termo “homoousios”.

Por fim, havia os Ortodoxos, que permaneceram fiéis ao termo do Primeiro Concílio Ecumênico, “homoousios”, mas, por um longo período, identificavam o termo “ousia” (essência) com “hypóstasis” (hipóstase), aceitando em Deus uma única essência e uma única hipóstase, dizendo: “uma hipóstase, uma divindade”. Por fim, as facções antinicenas influenciadas pelo arianismo tentavam convencer os ortodoxos homoousianos a abandonar o termo “homoousios” e aceitar um texto conciliatório.

Isso significa que os termos “ousia” (essência) e “hypóstasis” (hipóstase) precisavam ser ainda mais esclarecidos e definidos com maior precisão para enfrentar os hereges. Esse foi o trabalho assumido pelos Padres Capadócios, com o objetivo de unir os cristãos que permaneceram fiéis ao termo “homoousios” do Primeiro Concílio Ecumênico, mas que o distinguiam de “hipóstase-pessoa”. Veremos isso resumidamente, destacando os principais pontos de seu ensinamento.

Santo Atanásio, o Grande, lutou antes e depois do Primeiro Concílio Ecumênico, mas, devido à sua idade e aos muitos sofrimentos, exílios e perseguições, estava, nas palavras de São Gregório, o Teólogo, “exausto de tanto combater” e não conseguia lidar com os novos e numerosos líderes heréticos. É significativo que esses três Padres Capadócios o respeitavam como seu “Ancião” e, ao mesmo tempo, Santo Atanásio os confiava como seus sucessores.

Em geral, os três Padres Capadócios não teologizavam de forma filosófica, como faziam os hereges, mas sim a partir de sua experiência teológica vivida, dentro da tradição do hesicasmo, ou seja, fundamentando-se na revelação de Deus aos Profetas e Apóstolos. Seguindo seu exemplo, trilharam o caminho ascético e expressaram a experiência da Igreja.

São Basílio, o Grande, em suas obras, expressava a vida hesicasta e a relação entre a sagrada hesychia (quietude espiritual) e a teologia experiencial como revelação de Deus. Baseando-se nessa teologia vivida, ele formulou os termos adequados para combater os hereges.

São Gregório, o Teólogo, ensinava que o verdadeiro teólogo é aquele que purificou sua mente e foi conduzido à contemplação divina; aqueles que não seguiam esse método eram chamados por ele de “logoleschas”, ou seja, faladores vazios.

São Gregório de Nissa, tendo Moisés como modelo, ensinava que a teologia ortodoxa é a experiência de Deus na visão divina (theoptia).

São Basílio, o Grande (330-379 d.C.), ensinava que os nomes de Deus (Pai, Filho e Espírito) não indicavam a essência divina, mas sim as propriedades hipostáticas. Pai, Filho e Espírito Santo não designam “o que é” (isto é, a essência), mas sim “que existe”, ou seja, que há a divindade, a pessoa ou “como existe”, referindo-se ao modo de existência: a inascibilidade do Pai, a geração do Filho e a processão do Espírito Santo. As três Pessoas possuem a mesma essência, são consubstanciais (homoousios) ou idênticas, não de essências diferentes (heterousios) ou estranhas (allotriousios), mas possuem diferentes modos de existência: o não-nascimento do Pai, a geração do Filho e a processão do Espírito Santo.

O que é comum às três Pessoas é a essência (ousia), e o que é próprio é a hipóstase-pessoa. Ou seja, foi feita a distinção entre essência e hipóstase-pessoa. Assim, formulou-se a terminologia de que Deus tem uma essência e três hipóstases. Com essa distinção, houve um grande avanço na teologia ortodoxa. As energias de Deus são comuns às três Pessoas, pois o Pai é a “causa inicial”, o Filho é a “causa criativa” e o Espírito Santo é a “causa aperfeiçoadora”. Além disso, a Sagrada Tradição deve ser preservada como a menina dos olhos e não deve ser alterada. A tradição é autêntica quando é a experiência da verdade de Cristo.

São Gregório, o Teólogo, ensinava as mesmas doutrinas que São Basílio, o Grande, mas utilizava algumas expressões diferentes. Deus é um quanto à essência ou natureza, mas três quanto às pessoas ou hipóstases. Falando sobre a essência de Deus, ele escreveu: “O divino é infinito e insondável, e isso é o único aspecto compreensível Dele: a sua infinitude”. Além disso, não podemos entender racionalmente a inascibilidade do Pai, a geração do Filho e a processão do Espírito Santo. Sobre a essência e as hipóstases, ele escreve: “A divindade é indivisível nas hipóstases divididas”. O Filho e Verbo de Deus, ao se encarnar, assumiu “toda a humanidade”, toda a natureza humana, pois “o que não é assumido não é curado, mas o que é unido a Deus é salvo”. Ele teologizou de forma segura e inspirada pelo Espírito Santo sobre o Espírito Santo, afirmando que Ele procede do Pai, algo que é inatingível pela razão humana. O Deus trino é luz e vida. Ele escreve: “Era, era e era, mas era um só. Luz, luz e luz, mas uma luz só, um só Deus… Da luz do Pai percebemos a luz do Filho na luz do Espírito, uma teologia breve e sublime da Trindade”.

O Espírito Santo agia no Antigo Testamento “primeiro de maneira velada”, “depois de forma mais evidente” e “agora (no Pentecostes) de modo perfeito”. Ele escreve sobre o Espírito Santo: “O Espírito Santo sempre existiu, existe e existirá, sem ter tido um início nem um fim, mas sempre unido e contado com o Pai e o Filho… Ele sempre foi participante, mas não participante de algo; aperfeiçoa, mas não é aperfeiçoado; preenche, mas não é preenchido; santifica, mas não é santificado; deifica, mas não é deificado; sempre o mesmo em si mesmo e para aqueles com quem está unido; invisível, atemporal, ilimitado, imutável, sem forma, sem quantidade, sem aparência, intangível, autônomo, sempre em movimento, todo-poderoso… vida e doador da vida, luz e dispensador da luz”. Tudo o que o Pai possui, o Filho também possui, exceto a inascibilidade. Tudo o que o Filho possui, o Espírito Santo também possui, exceto a geração. Mas essas diferenças não dividem a essência, segundo minha visão, mas se referem apenas à distinção das hipóstases. Sobre Deus, ele afirma: “Expressá-Lo é impossível, como digo, e compreendê-Lo é ainda mais impossível”.

Ele deu grande importância à condição para se fazer teologia, que é a experiência da revelação, e essa é a diferença entre a teologia ortodoxa e a abordagem herética da teologia. Por isso, enfatiza que teologizar não é para todos, mas apenas “para aqueles que foram examinados e avançaram na contemplação, e antes disso purificaram ou estão purificando, pelo menos em algum grau, sua alma e corpo”.

São Gregório de Nissa seguia integralmente seu irmão segundo a carne, São Basílio, o Grande, e continuou seu trabalho, enfrentando Eunômio, compartilhando também pontos em comum com São Gregório, o Teólogo. Ele não insistia na questão de “quem” ou “o que” é Deus, mas sim no “como” da semelhança do homem com Deus, razão pela qual escreveu muitas obras místicas e hesicásticas. Ele enfatizava a diferença entre o incriado e o criado, afirmando que Deus é “o verdadeiro Ser”, “incriado” e “infinito”, enquanto o mundo é “existente”, “criado” e transitório.

Ele fez a distinção de que a diferença entre as Pessoas da Santíssima Trindade reside no “causador” e no “causado”. Essa diferença não se encontra na natureza-essência das Pessoas, que é comum, mas no “ser”, pois o causador é o Pai, que é a fonte das outras duas, e o “causado” é o Filho e o Espírito Santo. O Pai é sempre “a causa”, o Filho procede “da causa” como “causado”, e o Espírito Santo procede “por causa”. Além disso, expandiu a Cristologia de São Basílio Magno, enfatizando que o Verbo assumiu toda a natureza humana, exceto o pecado. Ocorreu a união entre divindade e humanidade, na qual a divindade permanece imutável e inalterável, enquanto a natureza humana é transformada, mas permanece “inconfundida” em si mesma e não é absorvida pelo divino.

O impressionante é que a teologia desses três Padres Capadócios influenciou significativamente os Concílios Ecumênicos posteriores, que enfrentaram outros hereges, e continua até hoje sendo a teologia da nossa Igreja. Essas análises teológicas foram um pouco complexas, mas o tema era teológico e não pude simplificá-lo ainda mais. Com o que disse, quis demonstrar:

Primeiro, os hereges teologizavam baseados nos princípios da filosofia, seja platônica ou aristotélica, enquanto os Padres da Igreja teologizavam com base na experiência reveladora, conforme foi expressa pelos Profetas, Apóstolos e Padres. O hesicasmo é a principal condição para a teologia.

Segundo, a formulação do Credo nas Primeiras e Segundas Sagradas Escrituras foi o resultado de anos de discussão e pesquisa sobre os textos das Escrituras Sagradas, bem como de experiência espiritual e oração. Houve muitas lutas, os Padres enfrentaram perseguições, exílios e suportaram grandes esforços até o martírio.

Terceiro, nessas lutas, desempenharam um papel crucial os três grandes Padres Capadócios: São Basílio Magno, São Gregório, o Teólogo, e São Gregório de Nissa, enquanto São João Crisóstomo, que veio depois deles, contribuiu para a consolidação dos cristãos com sua obra pastoral e sua brilhante pregação.

Esses Padres seguiram o grande “estrategista espiritual”, São Atanásio, Arcebispo de Alexandria, e se mostraram teólogos autênticos da Igreja, que, com seu conhecimento, experiência, educação, discernimento e sobriedade, impuseram a verdadeira teologia, fazendo algumas precisões na terminologia.

Portanto, ao ouvirmos o Credo sendo recitado na Igreja, devemos sentir um profundo arrepio espiritual e uma imensa emoção, pois cada palavra dele é fruto das grandes lutas de São Atanásio e dos três Padres Capadócios da Igreja. Além do respeito infinito que devemos sentir por esse bendito e santificado Credo e por cada uma de suas palavras, devemos recitá-lo frequentemente, memorizá-lo e proclamá-lo com reverência, pois ele está impregnado com lágrimas, suor e sangue dos santos, além da energia do Espírito Santo.

Fonte: Romfea.gr