Santo Hilário de Poitiers (c. 316-367)

Santo Hilário de Poitiers (c. 315-367) foi um dos mais importantes teólogos e bispos da Igreja no século IV, destacado por sua defesa da ortodoxia contra a heresia ariana. Nascido em uma família pagã de Poitiers, na atual França, converteu-se ao cristianismo e foi eleito bispo de sua cidade natal por volta do ano 350. Durante seu episcopado, tornou-se um ardoroso defensor da doutrina da Trindade, combatendo as heresias que negavam a divindade de Cristo. Sua firmeza lhe custou o exílio, ordenado pelo imperador Constâncio II, simpatizante dos arianos. Durante esse período, escreveu suas principais obras, incluindo De Trinitate, onde expõe a verdadeira relação entre o Pai e o Filho. Reconhecido como Doutor da Igreja, sua influência perdura até os dias de hoje.

Sobre a Santíssima Trindade

«A união entre o Pai e o Filho»

«Eu e o Pai somos um só»1.

Como os hereges não podem negar estas palavras, ditas de modo tão absoluto, corrompem-nas e falsificam-nas no sentido de sua impiedade, para torná-las condenáveis. Tentam limitá-las a uma simples unanimidade, como se no Pai e no Filho a unidade fosse apenas de vontade e não de natureza, ou seja, como se fossem uma só coisa não pelo que são, mas pelo que querem.

A essa interpretação adaptam, a seu modo, aquele trecho dos Atos dos Apóstolos onde se diz: “A multidão dos crentes era um só coração e uma só alma”². Almas e corações, em número plural, podem se unificar pela convergência das vontades a um único objeto. Os hereges também se servem do que está escrito aos coríntios: “Quem planta e quem rega são um só”³. Nesses dois haveria unidade moral, porquanto o ministério instituído para a salvação não difere.

Abusam igualmente do que disse o Senhor, quando rogou ao Pai pela salvação das nações que creriam nele: “Não só por estes rogo, mas também pelos que hão de crer em mim mediante a sua palavra, a fim de que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que eles também sejam um em nós”⁴. Ora, como os homens não podem dissolver-se em Deus nem misturar-se num conglomerado indistinto, sua unidade viria apenas de uma vontade unânime. Quando os homens fazem o que agrada a Deus — argumentam —, a harmonia dos espíritos os associa. Logo, concluem, não é a natureza, mas a vontade que os unifica.

Ignora a sabedoria quem ignora a Deus. E, como a sabedoria é o Cristo, está fora da sabedoria quem desconhece o Cristo ou só o conhece por meio dessa gente que prefere ver no Senhor da majestade, no Rei dos séculos e Deus unigênito, uma simples criatura, em vez do verdadeiro Filho. E, se persistem nisso, são ainda mais estultos ao defender sua mentira. Deixando de lado, por ora, a questão da unidade do Pai e do Filho, podemos refutá-los perfeitamente com as mesmas armas que empregam.

De fato, quando se diz que a alma e o coração dos fiéis eram um só, pergunto se isso não ocorria pela fé comum. Sim, era pela fé que o coração e a alma dos fiéis se tornavam uma só coisa. Questiono agora se essa fé é uma só ou múltipla. Uma só, certamente, como o Apóstolo já nos assegura, pregando que há uma só fé, um só Senhor, um só batismo, uma só esperança e um só Deus. Ora, se pela fé, isto é, pela natureza de uma única fé, todos eram um, como não aceitarás fisicamente a unidade daqueles que são um pela natureza da única fé?

Todos, na verdade, haviam renascido para a inocência, a imortalidade, o conhecimento de Deus, a fé e a esperança. E, se essas coisas não podem divergir entre si — pois também a esperança é uma só, e Deus é único, único é o Senhor, e único o banho regenerador —, quem poderia dizer que elas são unificadas mais pelo acordo de vontade do que por sua própria natureza? E que, igualmente, apenas pela vontade são unificados os que renasceram para esses bens? Se, contudo, foram antes regenerados para a natureza de uma mesma vida e eternidade (pelo que seu coração e sua alma se faziam um só), não podemos falar aqui de mera unidade moral: muitos são um só na regeneração da mesma natureza.

Não falamos de nós mesmos, nem arranjamos citações falsificadas, corrompendo o sentido das palavras para iludir nossos ouvintes. Mantendo a forma da sã doutrina, só acolhemos e prezamos o que é genuíno. O Apóstolo, em verdade, ensina, ao escrever aos gálatas, que a unidade dos fiéis provém da natureza dos sacramentos: “Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo; não há mais nem gentio nem grego, servo nem livre, homem nem mulher: todos sois um só em Cristo Jesus”⁵. Se, pois, tantos são um só, apesar da grande diversidade de nações, condições e sexo, quem poderá supor que isso lhes vem de um mero consenso moral? Não será, antes, da unidade do sacramento, um só batismo, em que todos se revestiram do único Cristo?

Que vem fazer aqui a mera concórdia das vontades, quando eles são um só precisamente porque se revestiram do Cristo único, mediante a realidade do batismo único?

Quando a Escritura diz que são um só o que planta e o que rega, não é também porque, renascidos eles mesmos de um só batismo, constituem, por sua vez, um ministério único na administração do banho regenerador? Não fazem, porventura, a mesma coisa? Não são um só, em um só? Ora, os que são um só pela mesma coisa o são por natureza, não apenas por vontade. Tornaram-se um e são, ao mesmo tempo, ministros da mesma coisa e do mesmo poder.

Sirvo-me sempre das alegações opostas pelos tolos para demonstrar sua tolice. E é claro: sendo a verdade firme e imutável, tudo o que uma inteligência perversa e insensata arranja para contradizê-la, vindo em sentido oposto, há de parecer forçosamente falso e estulto.

Procurando enganar-nos, os heréticos arianos, com o texto que diz: “Eu e o Pai somos um só”¹, aduziram também outra palavra do Senhor, para levar a crer (em vez da unidade de natureza e da não diversa divindade) numa simples união de mútuo amor e concórdia de vontades. Eis o texto: “Para que todos sejam um só; assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles também sejam um em nós”⁴. Exclui-se, evidentemente, das promessas evangélicas quem se exclui da fé nas mesmas. O crime da inteligência ímpia faz perder a esperança, que é simples. Ora, não ter o conhecimento daquilo que constitui o objeto da fé não merece castigo, mas prêmio, pois o maior estipêndio da fé é esperarmos o que não conhecemos. A última loucura da impiedade é ou não crer nas coisas que conhece, ou corromper o conhecimento do que deve crer.

Mas, ainda que a impiedade altere o sentido daquelas palavras, nem por isso elas perdem seu verdadeiro significado. O Senhor roga ao Pai para que os que crerem nele sejam um só e, como ele mesmo está no Pai e o Pai nele, também sejam um só neles. Por que vens agora introduzir a simples concórdia, a unidade de alma e coração, fundada exclusivamente na harmonia das vontades? Seria assim, com plena propriedade da expressão, se o Senhor, ao dirigir-se ao Pai, tivesse usado termos como estes: “Pai, assim como nós queremos uma só coisa, também eles queiram uma coisa, e sejamos todos um só pela concórdia das vontades…”

Terá acaso a própria Palavra ignorado o significado das palavras? Não saberá a Verdade dizer coisas verdadeiras? Falou com astúcia a Sabedoria? Aquele que é a Força terá sido incapaz de dizer o que queria? Ora, ele falou, enunciando os puros e verdadeiros mistérios da fé evangélica. Nem se limitou a falar apenas para mostrar, mas ensinou à nossa fé com estas palavras: “Que todos sejam um só; assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles também sejam um em nós”⁴. O pedido de Cristo é, primeiro, “para que todos sejam um só”; em seguida, mostra o modelo da unidade a seguir, nestas palavras: “Assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles sejam também um em nós”. Como o Pai está no Filho e o Filho no Pai, assim todos sejam um no Pai e no Filho, segundo o modelo e a forma da sua unidade!

Mas, como só ao Pai e ao Filho compete a unidade por natureza (pois Deus não pode ser de Deus, nem o Unigênito provir do Pai eterno senão na sua original natureza), assim também, para que se ressalve ao Filho a sua essência de origem e se reconheça à sua divindade a mesma verdade da Fonte de onde ela procede, eis que o Senhor, solícito em dissipar toda dúvida da nossa fé, se apressa a ensinar-nos, nas citadas palavras, a natureza dessa absoluta unidade. Segue-se, pois: “A fim de que o mundo creia que tu me enviaste”⁷. O mundo crerá na missão do Filho se todos os que crerem nele forem um no Pai e no Filho.

E como serão? Logo acrescenta: “E eu lhes darei a glória que tu me deste”⁷. Pergunto, então, se glória é o mesmo que “vontade”. Vontade é uma inclinação da mente; glória é o reflexo ou a dignidade da natureza. Logo, o que o Filho deu aos seus fiéis não é vontade, mas glória, aquela que ele recebeu do Pai. Se, com efeito, tivesse dado não glória, mas vontade, nossa fé já não teria prêmio, pois estaria obrigada por uma vontade prefixada e não livre⁶. A doação da glória constitui o bem indicado nas palavras seguintes: “Para que sejam um como nós o somos”⁷. É para que sejam todos um que a glória por ele recebida do Pai é dada aos crentes. São todos um só na glória concedida, pois não é outra a que ele dá senão a que recebe, nem para outro fim é dada senão para que todos sejam um. E, como pela glória dada pelo Filho aos fiéis todos são um, pergunto como há de ter o Filho uma glória menor que a do Pai, se aos próprios crentes a glória do Filho eleva à unidade da glória do Pai. Sem o aspecto da esperança humana, a palavra do Senhor será talvez insólita, mas seguramente não é infiel. Pois, embora fosse temerário esperar isso, seria irreligioso deixar de crer no autor tanto da fé quanto da esperança ali contida.

Bem, trataremos melhor deste assunto em seu tempo. Por ora, baste-nos ver que nossa esperança não é vã nem temerária. Concluindo: todos são um pela glória que o Filho recebe do Pai e confere aos fiéis. Afirmo a fé e, ao mesmo tempo, conheço a causa da unidade. Só falta compreender melhor a razão pela qual essa glória dada ao cristão é capaz de fundar tal unidade.

Não querendo o Senhor deixar algo incerto, referiu-se a um efeito da sua ação física, quando exclamou: “Para que todos sejam um, como nós somos um só. Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”⁷.

Tenho vontade de perguntar agora aos que pretendem existir entre Pai e Filho uma unidade puramente moral: o Cristo está hoje em nós na verdade da natureza ou numa simples concórdia de vontades?

Se, com efeito, o Verbo se fez carne e, na Ceia do Senhor, tomamos verdadeiramente esse Verbo-carne, como não haveria ele de permanecer em nós fisicamente?⁸ Nascido homem, não assumiu, de modo inseparável, a natureza mesma de nossa carne? E, no mistério do seu corpo, dado a nós em comunhão, não juntou à natureza de sua carne a sua divindade eterna? Logo, todos são um só, porque no Cristo está o Pai e em nós o Cristo.

Quem nega que o Pai esteja fisicamente em Cristo deve primeiro negar que ele mesmo esteja fisicamente em Cristo e o Cristo nele. É porque em Cristo está o Pai, e em nós o Cristo, que também nós somos feitos uma só coisa.

Se é verdade que Cristo assumiu a carne de nosso corpo, e que o homem nascido de Maria é Cristo; se é verdade que recebemos em mistério a carne de seu corpo (e por isso mesmo seremos um, pois o Pai está nele e ele em nós), como ousam asseverar uma unidade puramente moral, quando, pelo sacramento, a propriedade natural (da carne assumida por Cristo e por nós comida) é mistério da perfeita unidade?

Não se deve falar das coisas de Deus segundo o espírito do homem e do século, nem numa pregação violenta e imprudente. Da pureza das palavras divinas, devemos excluir a perversidade de um entendimento ímpio e estranho. Leiamos simplesmente o que está escrito e entendamos o que lemos: é o modo de exercitar a perfeita fé. Tudo o que dissermos da realidade física de Cristo em nós, ou foi dele mesmo que aprendemos, ou então é ímpio e estulto o que afirmamos. Mas ele mesmo diz: “Minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue verdadeiramente bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele”⁹. Quanto à verdade da carne e do sangue, não há lugar para dúvida: é verdadeiramente carne e verdadeiramente sangue, como vemos pela própria declaração do Senhor e por nossa fé em suas palavras. Esta carne, uma vez comida, e este sangue, bebido, fazem que também nós sejamos um em Cristo, e o Cristo em nós. Não é isto verdade? Não o será para os que negam ser Jesus Cristo verdadeiro Deus! Ele está, pois, em nós por sua carne e nós nele, e, ao mesmo tempo, o que nós somos está com ele em Deus.

Jesus mesmo atesta quão realmente estejamos nele pelo mistério da comunhão de sua carne e sangue, dizendo: “O mundo já não me vê; vós, porém, me vereis, pois eu vivo e vós vivereis; pois eu estou no Pai e vós em mim, e eu em vós”¹⁰. Se tencionou referir-se apenas a uma unidade de vontade, por que estabeleceu esta graduação e ordem na consumação da unidade? Não foi senão para que se cresse que ele está em nós pelo mistério dos sacramentos, como está no Pai pela natureza de sua divindade, e nós nele, por sua natureza corporal. Ensina-se, portanto, que pelo nosso Mediador se consuma a unidade perfeita, pois, enquanto permanecemos nele, ele permanece no Pai e, sem deixar de permanecer no Pai, permanece também em nós, e assim subimos até à unidade do Pai! Ele está no Pai fisicamente, segundo a origem de sua eterna natividade, e nós estamos nele fisicamente, enquanto ele também está em nós fisicamente.

Quão real seja esta unidade em nós, ele atesta, dizendo: “Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele”¹¹. Só aquele no qual o Senhor estiver poderá estar nele. Ele somente assume a carne daquele que o receber.

Já tinha o Senhor ensinado antes o mistério desta perfeita unidade, ao dizer: “Assim como me enviou o Pai, que vive, e eu vivo pelo Pai, o que comer minha carne também viverá por mim”¹².

Ele vive, pois, pelo Pai, e, do mesmo modo como vive pelo Pai, nós vivemos por sua carne.

Toda comparação, realmente, se emprega para determinar a forma que se quer dar a entender. Seu fim é fazer-nos atingir uma realidade segundo o modelo proposto.

Esta é, pois, a causa de nossa vida: que, por sua carne, tenhamos o Cristo em nós. Somos corporais, mas destinados a viver por ele segundo a mesma condição em que ele vive pelo Pai. Se, portanto, vivemos por ele, fisicamente, segundo a carne — isto é, alcançando a natureza de sua carne mesma —, como é que ele não tem fisicamente o Pai, segundo o espírito, se é pelo Pai que ele vive? Vive realmente pelo Pai; sua origem por geração não lhe confere uma natureza diversa, e é pelo Pai que ele é o que é, nunca se separando por qualquer dessemelhança sobrevinda. Por sua geração, tem em si o Pai na força da mesma natureza.

Se quisemos recordar tudo isso, foi porque os hereges, afirmando falsamente uma simples unidade moral entre o Pai e o Filho, usavam o exemplo de nossa própria unidade com Deus. Para eles, era como se, unidos ao Filho e ao Pai por um mero vínculo de obséquio e vontade religiosa, estivéssemos excluídos de qualquer comunhão física pelo sacramento da carne e do sangue. Ora, a verdade é que, pela comunicação da própria honra do Filho e pela existência do próprio Filho em nós por sua carne, e de nós nele, de modo corporal e inseparável, deve-se professar o mistério de uma unidade real e verdadeira.

Notas:
  • 1 Jo 10,30
  • 2 At 4,32
  • 3 lCor 3,8
  • 4 Jo 17,20
  • 5 Gl 3,27
  • 6 Sto. Hilário não quer negar que a fé seja um dom de Deus, o que, aliás, expressamente afirma em outros lugares deste mesmo tratado (como, por ex., 1. VIII, n. 30). Aqui só afirma, sem entrar em maiores distinções, que a fé supõe vontade livre.
  • 7 Jo 17,22
  • 8 “Fisicamente”, isto é, não apenas afetivamente
  • 9 Jo 6,56
  • 10 Jo 14,19
  • 11 .To 6,56
  • 12 Jo 6,57.

GOMES, C. Folch; Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas, II Edição revista, SP, 1985.