1. Vida
São Policarpo foi um dos mais famosos bispos da Igreja primitiva, conhecido como um dos “Padres Apostólicos”, pois foi discípulo direto dos Apóstolos. Ele foi instruído por São João Evangelista e era profundamente venerado pelos fiéis. Entre seus discípulos estavam Santo Ireneu e Papias.
Quando Florino, um antigo seguidor de Policarpo, começou a propagar heresias, Santo Ireneu escreveu-lhe:
“Isso não era o que ensinavam os bispos, nossos predecessores. Eu posso mostrar o lugar onde o bem-aventurado Policarpo costumava sentar-se para pregar. Ainda me lembro da gravidade de seu porte, da santidade de sua pessoa, da majestade de seu rosto e de seus movimentos, assim como de suas santas exortações ao povo. Ainda me parece ouvi-lo contar como havia conversado com João e com muitos outros que viram a Jesus Cristo, e repetir as palavras que havia ouvido deles. Se o santo bispo tivesse ouvido seus erros, teria tapado os ouvidos e exclamado, como era seu costume: ‘Meu Deus, por que me fizeste viver até hoje para ouvir tais coisas?’ E imediatamente teria fugido do lugar onde tal doutrina era pregada.”
A tradição relata que, ao encontrar-se com o herege Marcion nas ruas de Roma, Policarpo respondeu à provocação deste com firmeza: “Sim, eu te conheço: és o primogênito de Satanás.” Esse desprezo pelas heresias foi herdado de seu mestre, São João, que fugiu dos banhos ao ver Cerinto, compreendendo o grande mal que as heresias causam.
Policarpo beijou as correntes de Santo Inácio de Antioquia quando este passou por Esmirna a caminho do martirio. Inácio, por sua vez, pediu-lhe que cuidasse de sua Igreja em Antioquia e escrevesse em seu nome às Iglesias da Ásia. Policarpo escreveu uma carta aos Filipenses, que ainda existe e é elogiada por Santo Ireneu, São Jerônimo, Eusébio e outros. Essa carta, lida publicamente nas iglesias, é admirável por seus conselhos e clareza.
Policarpo viajou a Roma para discutir com o Papa Santo Aniceto questões como a data da Páscoa. Embora não tenham chegado a um acordo, decidiram manter a unidade na caridade. Aniceto permitiu que Policarpo celebrasse a Eucaristia em sua igreja, demonstrando grande respeito por ele.
2. Martírio
No sexto ano do reinado de Marco Aurélio, uma violenta perseguição eclodiu na Ásia. Muitos cristãos foram martirizados, incluindo Germânico, que incentivou os fiéis a permanecerem firmes. A multidão, insaciável, clamava: “Morte aos inimigos dos deuses! Morte a Policarpo!”
Policarpo foi persuadido a se esconder, mas um escravo o traiu. Ao ser preso, ele ofereceu comida aos soldados e pediu tempo para orar. Durante duas horas, ele orou por sua comunidade e pela Igreja, com tanta devoção que alguns dos captores se arrependeram.
No tribunal, o procônsul tentou persuadi-lo a renunciar a Cristo, mas Policarpo respondeu:
“Durante oitenta e seis anos servi a Cristo, e Ele nunca me fez mal. Como posso renegar meu Deus e Salvador? Se queres que eu jure pelo César, eis minha resposta: Sou cristão.”
Condenado à fogueira, Policarpo orou:
“Senhor Deus Todo-Poderoso, Pai de teu amado Filho, Jesus Cristo, por quem conhecemos a Ti, Deus dos anjos e de toda a criação, eu Te bendigo por me permitires participar do cálice de teu Cristo e ser recebido entre teus mártires. Recebe este sacrifício como louvor e glória!”
As chamas não o consumiram, e ele foi morto com uma lança. Seus ossos foram recolhidos como relíquias preciosas.
3. Obras e Fontes
A autenticidade da Carta sobre o Martírio de Policarpo, escrita pela Igreja de Esmirna, é amplamente aceita. A Carta de Policarpo aos Filipenses e as informações de Santo Ireneu sobre sua relação com São João também são consideradas confiáveis. A data de seu martirio é debatida, mas muitos estudiosos a situam em 155 ou 156 d.C.
Homilia:
«Se Me perseguiram a Mim, também vos hão de perseguir a vós»
Meus irmãos: perseveremos inabalavelmente firmes na nossa esperança e no penhor da nossa justificação, Jesus Cristo. Sejamos imitadores da Sua paciência; e, se padecermos por Sua causa, demos glória ao Seu nome. Este foi o exemplo que Ele nos deu com a Sua vida, e é nisso que nós acreditamos.
Peço-vos a todos que obedeçais à palavra da justiça e em tudo exerciteis a paciência. Esta paciência pudestes contemplá-la com os vossos próprios olhos, não só nos bem-aventurados Inácio, Zózimo e Rufo, mas também em muitos outros que eram da vossa comunidade, bem como no próprio Paulo e nos outros Apóstolos. Lembrai-vos de que todos estes não correram em vão, mas na fé e na justiça, e se encontram agora no lugar que mereceram, junto do Senhor, com quem também padeceram. Porque eles não amaram este mundo, mas Aquele que por nós morreu e que Deus ressuscitou por causa de nós.
Que Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e o mesmo Jesus Cristo, Pontífice eterno, Filho de Deus, vos façam crescer na fé e na verdade, em toda a mansidão, sem ira, na paciência e na longanimidade, na fortaleza e na castidade. O Senhor vos faça tomar parte na herança dos Seus santos e, juntamente convosco, também a nós e a todos quantos vivem debaixo do céu e hão de acreditar em nosso Senhor Jesus Cristo e em Seu Pai que O ressuscitou dos mortos. Rezai por todos os santos. Orai também pelos reis, pelas autoridades e pelos príncipes, por aqueles que vos perseguem e odeiam e pelos inimigos da cruz, a fim de que o vosso fruto se manifeste em todas as circunstâncias e sejais perfeitos em Cristo.
Fonte: Butler, Alban. Vida dos Santos. pp. 172-175. Edição espanhola.
Disponível em: www.corazones.org

