Constituições Apostólicas (380)
Recolha canônica e litúrgica. Recuperação da Didascália dos Apóstolos. Texto dos começos do século III
«Nem um cabelo da vossa cabeça se perderá»
As Constituições Apostólicas, compiladas por volta de 380, provavelmente na Síria ou Antioquia, representam uma das mais importantes coleções canônicas e litúrgicas da Igreja primitiva. Esta obra, atribuída tradicionalmente aos apóstolos e redigida em nome de Clemente de Roma, é uma reelaboração ampliada da Didascália dos Apóstolos, um texto originário do início do século III, também de origem síria. Dividida em oito livros, as Constituições abrangem normas disciplinares, instruções litúrgicas, orações e exortações morais dirigidas a clérigos, leigos, catecúmenos e mártires. Seu objetivo era orientar a vida cristã em um contexto de consolidação da fé, em meio a perseguições e desafios teológicos, como as heresias emergentes.
O trecho a seguir, extraído do Livro V, reflete a exortação ao martírio e à perseverança na fé, ecoando a promessa divina de ressurreição e recompensa eterna. A linguagem é marcada por um tom pastoral e encorajador, inspirado diretamente nas Escrituras, como se vê na citação central: “Nem um cabelo da vossa cabeça se perderá” (Lc 21,18).
Se formos chamados ao martírio, devemos confessar com firmeza o precioso Nome de Jesus. E, se por isso formos punidos, alegremo-nos, pois estaremos correndo para a imortalidade. Que a perseguição não nos entristeça, nem nos leve a apegar-nos ao mundo presente, aos “louvores dos homens” (Rm 2,29), ou à glória passageira dos poderosos, como fizeram alguns. Estes, embora admirassem as obras do Senhor, não creram Nele, temendo os sumos sacerdotes e outros líderes, pois “amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12,43). Ao professarmos solenemente nossa fé (cf. 1Tm 6,12), asseguramos nossa salvação, fortalecemos a fé dos recém-batizados e consolidamos a confiança dos catecúmenos.
Quem for considerado digno do martírio deve regozijar-se, pois imita o Mestre. Está escrito: “O discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6,40). Nosso Mestre, Jesus, o Senhor, foi flagelado por nossa causa, suportou pacientemente calúnias e humilhações, foi cuspido, esbofeteado e espancado. Após ser açoitado, foi crucificado, recebeu vinagre e fel para beber e, cumprindo plenamente as Escrituras, entregou-se ao Pai, dizendo: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Assim, todo aquele que deseja ser seu discípulo deve aspirar a combater como Ele, imitando sua paciência. Saiba que será recompensado por Deus por tudo o que sofrer, desde que creia no único Deus verdadeiro.
Pois o Deus Todo-Poderoso nos ressuscitará por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme sua promessa infalível, junto com todos os que morreram desde o início dos tempos. Ainda que pereçamos nas profundezas do mar, que nossos corpos sejam dispersos pelo mundo ou despedaçados por feras e aves de rapina, Ele nos fará ressurgir por seu poder soberano. Todo o universo está sustentado pela mão de Deus, e, como Ele assegura, “nem um cabelo da vossa cabeça se perderá” (Lc 21,18). Por isso, o Senhor nos exorta: “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas” (Lc 21,19).
Contexto Histórico e Teológico
As Constituições Apostólicas foram redigidas em um período de transição para o cristianismo, após o Edito de Milão (313), quando a Igreja passava de uma realidade perseguida a uma instituição reconhecida no Império Romano. No entanto, o texto reflete ecos das perseguições anteriores, como as sofridas sob Diocleciano (303-313), e busca preparar os fiéis para a possibilidade de novos conflitos, seja com autoridades pagãs, seja com grupos heréticos, como os arianos, que desafiavam a ortodoxia cristã no final do século IV.
A obra incorpora materiais mais antigos, como a Didascália dos Apóstolos, que tratava de questões práticas da vida eclesiástica — ordenação de bispos, diáconos e viúvas, além de normas para jejuns e orações. As Constituições ampliam esse escopo, incluindo hinos, orações litúrgicas (como a mais antiga forma conhecida da anáfora eucarística) e reflexões teológicas sobre o martírio e a ressurreição, temas centrais no trecho apresentado. A ênfase na imitação de Cristo como modelo de paciência e sacrifício revela a influência de tradições martiriológicas, como os relatos de Policarpo de Esmirna (século II) e Inácio de Antioquia.
Se formos chamados ao martírio, devemos confessar com firmeza o precioso Nome de Jesus. E, se por isso formos punidos, alegremo-nos, pois estaremos correndo para a imortalidade. Que a perseguição não nos entristeça, nem nos leve a apegar-nos ao mundo presente, aos “louvores dos homens” (Rm 2,29), ou à glória passageira dos poderosos, como fizeram alguns. Estes, embora admirassem as obras do Senhor, não creram Nele, temendo os sumos sacerdotes e outros líderes, pois “amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12,43). Ao professarmos solenemente nossa fé (cf. 1Tm 6,12), asseguramos nossa salvação, fortalecemos a fé dos recém-batizados e consolidamos a confiança dos catecúmenos.
Quem for considerado digno do martírio deve regozijar-se, pois imita o Mestre. Está escrito: “O discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6,40). Nosso Mestre, Jesus, o Senhor, foi flagelado por nossa causa, suportou pacientemente calúnias e humilhações, foi cuspido, esbofeteado e espancado. Após ser açoitado, foi crucificado, recebeu vinagre e fel para beber e, cumprindo plenamente as Escrituras, entregou-se ao Pai, dizendo: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Assim, todo aquele que deseja ser seu discípulo deve aspirar a combater como Ele, imitando sua paciência. Saiba que será recompensado por Deus por tudo o que sofrer, desde que creia no único Deus verdadeiro.
Pois o Deus Todo-Poderoso nos ressuscitará por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme sua promessa infalível, junto com todos os que morreram desde o início dos tempos. Ainda que pereçamos nas profundezas do mar, que nossos corpos sejam dispersos pelo mundo ou despedaçados por feras e aves de rapina, Ele nos fará ressurgir por seu poder soberano. Todo o universo está sustentado pela mão de Deus, e, como Ele assegura, “nem um cabelo da vossa cabeça se perderá” (Lc 21,18). Por isso, o Senhor nos exorta: “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas” (Lc 21,19).
Aprofundamento Teológico
A citação “Nem um cabelo da vossa cabeça se perderá” (Lc 21,18) é parte do discurso escatológico de Jesus no Evangelho de Lucas, que prepara os discípulos para as tribulações finais. Nas Constituições, ela é reinterpretada para afirmar a providência divina e a certeza da ressurreição corporal, um ponto crucial na polêmica contra heresias gnósticas e docetas, que negavam a relevância do corpo ou a realidade física do sofrimento de Cristo. A menção ao poder de Deus que sustenta o universo ecoa passagens como Jó 12,10 (“Na sua mão está a vida de todos os seres”) e reforça a soberania divina sobre a criação, um tema recorrente na teologia síria, como se vê também em Santo Efrém.
A exortação à perseverança (“Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”, Lc 21,19) sublinha a dimensão ética da fé cristã: o martírio não é apenas um destino, mas uma escolha ativa de fidelidade. Esse apelo ressoa com a teologia de Paulo, como em Rm 5,3-4: “A tribulação produz perseverança; e a perseverança, caráter aprovado.”
Relevância
As Constituições Apostólicas são um testemunho da riqueza da tradição cristã oriental no século IV, unindo elementos práticos, litúrgicos e teológicos. Embora não tenham sido universalmente aceitas como canônicas — devido a interpolações posteriores, possivelmente arianas —, elas influenciaram a liturgia e a disciplina da Igreja, especialmente no Oriente. Hoje, são estudadas como fonte histórica e espiritual, revelando como os primeiros cristãos entendiam o chamado à santidade em tempos de crise.

