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1. Diálogo sobre a Encarnação

Rejeitemos todos os disparates, fábulas inconsistentes, falsas opiniões e frases pomposas ilusórias. Mantenhamo-nos distantes de tudo o que é nocivo, mesmo que os adversários nos ensurdeçam com seus discursos astutos ou agressivos. Pois o mistério divino “não consiste em discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito”.

O Unigênito, que, conforme as Escrituras, era Deus e Senhor de todas as coisas, revelou-se a nós. Foi visto sobre a terra e iluminou os que jaziam nas trevas, fazendo-se homem. Não apenas em aparência: não se pense assim, pois é loucura pensá-lo e dizê-lo! Nem tampouco porque se tenha tornado carne mediante uma mudança ou transformação: o Verbo é imutável, ele permanece eternamente o mesmo! Nem porque sua existência fosse contemporânea à da carne: ele é o Autor dos séculos! Nem porque, como pura palavra (sem subsistência), se tenha tornado homem: ele é o pré-existente, que chama as coisas à existência! Ele é a Vida, procedente da Vida, que é Deus Pai, o qual, como sabemos, existe em própria hipóstase. Nem simplesmente se revestiu de uma carne privada de alma racional: foi verdadeiramente gerado por uma mulher, mostrou-se homem, assumindo a forma de servo, ele, o Deus Verbo, coeterno e coexistente com o Pai; e assim como é perfeito em sua divindade, assim o é em sua humanidade, constituindo um só Cristo, Senhor e Filho, não apenas por justaposição da divindade e da carne, mas pela conexão paradoxal de dois elementos completos, a humanidade e a divindade, num único e mesmo ser.

— Quem, pois, foi gerado pela santa Virgem? O homem ou o Verbo procedente de Deus?

— Eis o erro, o pecado, contra todas as conveniências e contra a verdade! Não dividas ou separes o Emanuel em um homem e um Deus Verbo, não o faças um ser de dupla personalidade. Pois, caso contrário, estaremos incorrendo numa afirmação condenada pela Sagrada Escritura, não estaremos pensando corretamente. Eis, na verdade, o que diz um dos discípulos de Cristo: “Quanto a vós, caríssimos, lembrai-vos do que foi predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, quando vos falavam: nos últimos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões, homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito”.

— Então, não se deve introduzir divisão alguma?

— Não. E, sobretudo, não se devem afirmar dois seres após a união, pensando cada um em separado. É preciso reconhecer que a mente considera certa diferença entre as naturezas: a divindade e a humanidade não são, seguramente, a mesma coisa; mas, ao mesmo tempo, há de se admitir a fusão das duas numa unidade.

Assim, ele nasceu de Deus Pai enquanto Deus, e da Virgem enquanto homem. Esplendor derivado do Pai, acima de toda palavra e de todo pensamento, o Verbo é dito também gerado por uma mulher, pois, descendo à humanidade, tornou-se o que não era; não para ficar nesse aniquilamento, mas para que o creiamos Deus, mesmo quando se manifestou na terra sob uma forma como a nossa; não simplesmente habitando no homem, mas tornando-se, ele mesmo, homem por natureza, e conservando sua própria glória. Assim, esses dois elementos tão distantes de qualquer consubstancialidade, separados por incomensurável diferença, a humanidade e a divindade, Paulo os vê unidos num só, em razão da Economia, indicando que dos dois se constituiu um só Cristo, Filho de Deus: “Paulo, servo do Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, segregado para o Evangelho de Deus, outrora prometido pelos profetas nas santas Escrituras a respeito de seu Filho, nascido, segundo a carne, da semente de Davi, estabelecido em seu poder de Filho de Deus, segundo o Espírito de santidade”.

Veja-se como ele se diz “segregado para o Evangelho de Deus”, embora escreva também: “Não pregamos a nós, mas a Jesus, Cristo e Senhor”, e ainda: “Não quis saber nada mais entre vós senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”.

Ora, ao mesmo tempo que o designa como Filho de Deus, Paulo diz também que Cristo nasceu da semente de Davi e foi estabelecido Filho de Deus. Como — diz-me — é Deus o que nasceu da semente de Davi? O Filho anterior aos séculos, eterno enquanto nascido de Deus — pôde ser estabelecido Filho de Deus, como se de pouco tivesse vindo à existência? Na verdade, ele mesmo disse de si: “O Senhor me falou: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”, e no entanto a palavra “hoje” nos indica o momento presente, não o passado.

— Isso não deixou de me embaraçar muito, e diria que outros também tiveram dificuldades para compreendê-lo.

— Para os que separam e dividem (o Cristo), há de que se embaraçarem, com efeito; mas para os que afirmam a unidade no Emanuel, é fácil o conhecimento autêntico dos sagrados dogmas. O Filho coeterno àquele que o gerou, e anterior aos séculos, quando desceu à natureza humana — sem abandonar sua qualidade de Deus, mas acrescentando-lhe o elemento humano — pôde na verdade ser concebido como oriundo da semente de Davi e ter um nascimento recente. Pois o que se lhe acrescentou não lhe era estranho, e sim próprio; assim, foi computado como um consigo, exatamente como no caso do composto humano, feito de elementos naturalmente desiguais (refiro-me à alma e ao corpo) e que, no entanto, fazem resultar um único homem. Assim como a carne empresta seu nome ao vivente inteiro, ou a alma também pode designá-lo, eis o que acontece em Cristo. Pois não há senão um Filho e um Senhor Jesus Cristo, antes de assumir a carne e depois que se manifestou como homem. Não estaremos assim renegando o Mestre que nos resgatou, mesmo se ocorre vir designado por suas fraquezas humanas e pelos limites impostos por seu aniquilamento.

— Não estou seguindo bastante bem; gostaria de uma explicação mais clara.

— Nosso Senhor Jesus Cristo disse, dirigindo-se aos judeus: “Se fôsseis os filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão, em vez de procurar matar-me — a mim que vos disse a verdade. Isso Abraão não fez”.

Paulo, por sua vez, escreve: “Foi ele que, nos dias de sua vida mortal, ofereceu preces e súplicas, acompanhadas de um grande brado e de lágrimas, àquele que o poderia salvar da morte, e foi ouvido por sua reverência. Embora Filho, aprendeu pelo sofrimento o que significa obedecer”.

Diremos, então, que Cristo é puro homem, em nada superior ao que nós somos?

— Não, não se diga assim!

— Ele, a sabedoria e o poder de Deus, admitiremos que tenha descido a tal grau de fraqueza a ponto de temer a morte e a ponto de suplicar ao Pai a salvação? Tiraremos ao Emanuel o privilégio de ser a Vida, por natureza? Ou estaremos falando corretamente ao reportar à humanidade e à limitação da natureza semelhante à nossa as expressões menos honrosas, percebendo ao mesmo tempo a glória sobrenatural que lhe vem dos traços de sua divindade, compreendendo que o mesmo é, a uma vez, Deus e homem, ou antes, Deus feito homem?

— Como assim, diz-me?

— Venha testemunhar entre nós o ilustre Paulo, de quem são estas palavras: “É da sabedoria que falamos aos perfeitos, não de uma sabedoria deste mundo nem dos príncipes deste mundo, condenados a perecer. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu. Porque se a tivessem conhecido não teriam crucificado ao Senhor da glória”. E ainda: “Esplendor da (divina) glória e figura da (divina) substância, ele mantém o universo com o poder de sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade divina no mais alto dos céus, tão sublimado acima dos anjos, quanto excede o deles o nome que herdou”. De fato, ser e chamar-se “Senhor da glória” não está muito acima e além de toda criatura, sujeita à mudança? E omito o que se refere à espécie humana, que é bem menos importante: são aqui mencionados os anjos, as potestades, os tronos, as dominações, são mencionados até os sublimes serafins, reconhecendo-se que estão muito aquém desse sublime Esplendor, o que é claro ao menos para quem não traz o espírito corrompido. Tais privilégios, verdadeiramente extraordinários, são apanágio da natureza que reina sobre o universo.

Ora, como o Crucificado poderia tornar-se Senhor da glória? O Esplendor do Pai, a imagem de sua substância, o que sustenta o universo por sua palavra poderosa, ei-lo dito feito superior aos anjos: penso que só porque assumira antes uma condição inferior à deles, aparecendo como homem. Está escrito, com efeito: “Aquele que foi rebaixado um instante sob os anjos, Jesus, nós o vemos coroado de glória e de honra, por causa da morte que sofreu”.

Apartaremos então o Verbo, nascido de Deus Pai, da transcendência que lhe cabe por sua essência, da exata semelhança com esse Pai, quando o vemos inferior em glória aos anjos, na situação humilde que lhe trouxe a Economia?

— Não, por certo. Não penso que se deva separar completamente o Verbo de Deus das fraquezas humanas após sua união com a carne, nem despojar da divina glória o elemento humano, se se julga e se confessa estar este no Cristo. Alguns perguntarão, contudo, bem o sabes: mas quem é então Jesus Cristo? O homem nascido da Virgem ou o Verbo nascido de Deus?

— Francamente, é tolice estender-nos inutilmente na resposta a um vão palavreado. Contento-me em dizer que é perigoso e culpável separar em dois, pondo cada um à parte, o homem e o Verbo: a Economia não o admite, a Escritura inspirada clama que Cristo é um. Quanto a mim, digo que nem o Verbo divino sem a humanidade, nem o templo nascido da mulher, enquanto não está unido ao Verbo, devem ser chamados Jesus Cristo. Por Cristo se entende o Verbo procedente de Deus, unido à humanidade. Superior à humanidade enquanto Deus, por natureza, e Filho. Inferiorizado à glória digna de Deus, enquanto homem. Por isso, ora disse ele: “Quem me viu, viu o Pai”, “Eu e o Pai somos um”; ora disse, ao contrário: “Meu Pai é maior do que eu”. Não é menor do que o Pai enquanto lhe é idêntico em substância, é seu igual sob todos os aspectos, mas se diz menor em razão do que tem de humano. As Sagradas Escrituras o pregam também assim, ora como inteiramente homem, sem mencionar sua divindade, ora como Deus, sem nada dizer de sua humanidade. Não erram, por causa da conjunção dos dois elementos na unidade.

2. Discurso pronunciado no Concílio de Éfeso sobre Maria

Salve, cidade de Éfeso, mais formosa que os mares, porque em vez dos portos da terra, marcaram encontro em ti os que são portos do céu! Salve, honra desta região asiática, semeada por todos os lados de templos, como preciosas joias, e consagrada, no presente, pelos benditos pés de muitos santos Padres e Patriarcas! Com sua vinda, cumularam-te de toda bênção, porque onde eles se congregam, aumenta e multiplica-se a santidade: religiosos fiéis, anjos da terra, afugentam eles, com sua presença, todo satânico poder e toda afeição pagã. Eles, repetimos, confundem toda heresia e são glórias de nossa fé ortodoxa.

Salve, bem-aventurado João, apóstolo e evangelista, glória da virgindade, mestre da honestidade. Salve, vaso puríssimo da temperança, a ti, virgem, confiou, na cruz, nosso Senhor Jesus Cristo, a Mãe de Deus, sempre virgem!

Salve, ó Maria, Mãe de Deus, virgem e mãe, estrela e vaso de eleição! Salve, Maria, virgem, mãe e serva: virgem, na verdade, por virtude daquele que nasceu de ti; mãe, por virtude daquele que cobriste com panos e nutriste em teu seio; serva, por aquele que amou de servo a forma! Como Rei, quis entrar em tua cidade, em teu seio, e saiu quando lhe aprouve, cerrando para sempre sua porta, porque concebeste sem concurso de varão, e foi divino teu parto. Salve, Maria, templo onde mora Deus, templo santo, como o chama o profeta Davi, quando diz: “O teu templo é santo e admirável em sua justiça” (Sl 64). Salve, Maria, criatura mais preciosa da criação; salve, Maria, puríssima pomba; salve, Maria, lâmpada inextinguível; salve, porque de ti nasceu o sol da Justiça! Salve, Maria, morada da infinitude, que encerraste em teu seio o Deus infinito, o Verbo unigênito, produzindo sem arado e sem semente a espiga incorruptível! Salve, Maria, mãe de Deus, aclamada pelos profetas, bendita pelos pastores, quando com os anjos cantaram o sublime hino de Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14). Salve, Maria, Mãe de Deus, alegria dos anjos, júbilo dos arcanjos que te glorificam no céu! Salve, Maria, Mãe de Deus: por ti adoraram a Cristo os Magos guiados pela estrela do Oriente; salve, Maria, Mãe de Deus, honra dos apóstolos! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem João Batista, ainda no seio de sua mãe, exultou de alegria, adorando como luzeiro a perene luz! Salve, Maria, Mãe de Deus, que trouxeste ao mundo graça inefável, da qual diz São Paulo: “Apareceu a todos os homens a graça de Deus salvador” (Tt 2,1). Salve, Maria, Mãe de Deus, que fizeste brilhar no mundo aquele que é luz verdadeira, a nosso Senhor Jesus Cristo, que diz em seu Evangelho: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Deus te salve, Mãe de Deus, que iluminaste aos que estavam em trevas e sombras de morte; porque o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz (Is 9, 2), uma luz não outra senão Jesus Cristo nosso Senhor, luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9). Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem se apregoa nos Evangelhos: “Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9), por quem se encheram de igrejas nossas cidades, campos e vilas ortodoxas! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o vencedor da morte e o destruidor do inferno! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o autor da criação e o restaurador das criaturas, o Rei dos céus! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem floresceu e refulgiu o brilho da ressurreição! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem luziu o sublime batismo de santidade no Jordão! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem o Jordão e o Batista foram santificados e o demônio foi destronado! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem é salvo todo espírito fiel! Salve, Maria, Mãe de Deus — pois acalmaste e serenaste os mares para que pudessem nossos irmãos cooperadores e pais e defensores da fé serem conduzidos, com alegria e júbilo espiritual, a esta assembleia de entusiásticos defensores de tua honra!

Também aquele que, levando cartas de perseguição, sendo derrubado pela luz do céu no caminho de Damasco, falou sobre ti e confirmou para o mundo a fé na Trindade consubstancial, de um só Senhor, de um só batismo; de um só Pai, um só Filho, um só Espírito Santo; da substância inseparável e simplicíssima; da divindade incompreensível do Senhor Deus de Deus, Luz de Luz, Esplendor da Glória, que nasceu de Maria Virgem, conforme o anúncio do Arcanjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, o Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra, e por isso o santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus vivo” (Lc 1,35). Não somente o sabemos pelo arcanjo Gabriel; também Davi, no vaticínio que canta diariamente a Igreja, nos diz: “O Senhor me disse: és meu filho; no dia de hoje te gerei” (Sl 2,7). Já o sábio Isaías, filho do profeta Amós, profeta nascido de profeta, o predissera: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho e seu nome será Emanuel, que significa Deus conosco” (Mt 1,23).

Por isso, todos os que formos fiéis às Escrituras, seguindo os caminhos de Paulo, ouvindo as vozes dos profetas, clamar-te-ão Bem-aventurada. Todos os que formos seguidores dos Evangelhos permaneceremos como disse o profeta: seremos como “oliveira fértil na casa de Deus” (Sl 51), glorificando a Deus Pai Todo-Poderoso, a seu Filho Unigênito que nasceu de Maria e ao vivificante Espírito Santo, que se comunica a todos na vida; submissos aos fidelíssimos imperadores, honrando as rainhas, discretas e santas virgens, no seu amor à fé ortodoxa de Cristo de Jesus, nosso Senhor, a quem se deve a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte:

GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Ed. Paulinas, 1979.