Vida:
São Pedro Crisólogo (c. 380–450) foi um dos grandes Padres da Igreja e um dos mais eloquentes pregadores do século V. Nascido em Ímola, na Itália, recebeu o epíteto de Crisólogo, que significa “palavra de ouro”, devido à sua extraordinária habilidade retórica e à profundidade de seus sermões. Foi ordenado bispo de Ravena por volta do ano 424, durante o pontificado do Papa Sisto III.
Durante seu episcopado, São Pedro Crisólogo destacou-se por sua dedicação pastoral, sua defesa da ortodoxia contra as heresias de seu tempo, como o monofisismo, e sua capacidade de comunicar os mistérios da fé de maneira clara e inspiradora. Seus sermões, muitos dos quais sobreviveram até hoje, abordam temas como a Encarnação, a Eucaristia, a Virgem Maria e a vida cristã, sempre com um estilo vibrante e cheio de unção espiritual.
São Pedro Crisólogo faleceu por volta do ano 450, deixando um legado de fé e sabedoria que continua a inspirar os cristãos.
Obras:
«Sermão de Natal»
(P.L. 52, 585-588)
Seríamos levados, antes, a adiar nosso sermão, tal a sublimidade e o mistério do nascimento de Cristo. A Virgem deu à luz; quem o explicará? O Verbo se fez carne; quem explanará este mistério? Se o Verbo de Deus chorou na boca de uma criança, como poderá falar dele o homem cheio de imperfeições? Mas, assim como a estrela iluminou os magos em busca da Luz, a palavra do pregador deve dar a conhecer a seus ouvintes o nascimento de Deus, a fim de que se regozijem com o encontro de Cristo e, mais do que perscrutarem seus divinos segredos, honrem com dádivas o Menino-Deus. Orai, irmãos meus, para que se digne crescer, pouco a pouco, em minha palavra, Aquele que aceitou crescer num corpo como o nosso.
O evangelista diz que o anjo falou assim: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”. Não temas, Maria. E por quê? Porque achaste graça. Temer não é próprio de quem recebe, mas de quem perde. Recebeste, concebendo, a graça do divino germe, e não perdeste o brilho de tua virgindade ao entregá-lo à luz. “Não temas, Maria”. Que pode temer aquela que concebe a segurança do mundo, a alegria dos séculos? O temor não existe onde se trata de algo divino, não humano; onde há consciência de virtude, não de impureza. Que pode temer a mãe d’Aquele a quem temem até os que infundem temor? Que pode temer aquela cujo assessor é o Juiz da própria causa e que tem sua integridade como testemunho de sua inocência? “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”.
A Virgem acolheu em seu seio o Verbo divino, o qual, desde a eternidade, coexistia com Deus. Fez-se grandioso templo da Divindade, ela, morada humilde e humana. Aquele que não podia ser contido na pequenez do corpo humano, habitou na estreiteza do ventre virginal. “Eis que conceberás no ventre”. Bastaria ter dito: “conceberás”; por que acrescentou: “no ventre”? Para indicar que a concepção era real, não aparente; para atestar que o nascimento seria real, não fictício; para demonstrar que, assim como Cristo, enquanto Deus, procede do verdadeiro Deus, enquanto homem, tem um corpo que é fruto bendito da verdadeira concepção. É, pois, herético afirmar que Cristo tomou um corpo etéreo e apenas aparentou a forma de homem. “Eis que conceberás no ventre e darás à luz um filho, ao qual chamarás Jesus”.
Em hebraico, “Jesus” significa “Salvador”. Com razão, pois, tudo está salvo na Virgem, quando ela gerou o Salvador de tudo. “Chamarás Jesus”. Porque com este nome é adorada a majestade augusta da divindade; todos os que habitam os céus, os que povoam a terra, os que gemem nas profundezas do inferno prostram-se ante esse nome e o adoram. Ouvi as palavras do Apóstolo: “Ao nome de Jesus se dobrará todo joelho, no céu, na terra e nos infernos” (Fl 2, 11). É o nome que deu vista aos cegos, ouvido aos surdos, curou os coxos, deu fala aos mudos, vida aos mortos, libertou os possessos do demônio. Mas, se o nome é tão sublime, quanto não o será o poder de seu dono? O mesmo anjo diz quem seja Aquele que detém esse nome: “Ele será chamado Filho do Altíssimo”. Vede: o que a Virgem concebe não é germe da terra, mas do céu. A Virgem deu à luz, e seu filho é o Filho de Deus! Portanto, os que pretendem encontrar algo de apenas humano nesse nascimento estão injuriando o Altíssimo!
“E o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá fim”. São palavras que o herege procura turvar em favor de seu erro. “Eis, diz aqui, é o anjo quem fala: o Senhor Deus lhe dará… Então, não é maior aquele que dá do que aquele que recebe? E o que recebe, acaso já possuía o que recebe?”
Nós, porém, irmãos, escutemos tais palavras do anjo, não como os pérfidos hereges, mas como verdadeiros fiéis; sejam-nos fundamento para a fé, não pretexto para o erro. “O Senhor Deus lhe dará”. Que Deus? O próprio Verbo, que era, no princípio, Deus (Jo 1, 1). A quem dará? Ao que se fez carne e habitou entre nós. Ouçamos o Apóstolo, que diz: “Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo” (2Cor 5, 19). Consigo, não com outro. Portanto, Deus, que estava em Cristo, se dava a si mesmo o reino, em Cristo, conferindo ao corpo assumido o que desde sempre possuía na divindade.
“Dar-lhe-á o Senhor Deus a sede de Davi, seu pai”. Veja-se: quando recebe, chama-se filho de Davi; quando dá, Filho de Deus. Ele mesmo disse: “Tudo o que o Pai tem é meu” (Jo 17, 10). De onde, pois, vem essa necessidade de receber, se existe a posse de tal poder? “Tudo o que o Pai tem é meu”. Quem recebe o que já é seu? Porventura é graça de um doador aquilo que o receptor já possui? Confessemos que houve um receptor, mas foi o que nasceu, o que assumiu a carne e a infância, o que sofreu o presépio e os trabalhos da vida, o que sentiu fome e sede, o que não fugiu às injúrias, o que subiu à cruz e padeceu a morte, o que ingressou no sepulcro; a este atribui, ó herege, a recepção de algo! Por que pensas que Deus despreza receber a honra, se recebeu injúrias? Pensas que Lhe aborrece receber do Pai um reino, Ele que dos inimigos recebeu afrontas e até a morte? Herege, tudo o que é injúria, temporal, recebido, tudo o que importa diminuição e inclui a morte, entende não dizer respeito à divindade, mas ao corpo! Assim não farás injúria ao Filho, não colocarás distâncias na Trindade.
Mas voltemos ao nosso tema: “Dar-lhe-á o trono de Davi, seu pai”. Aquele, pois, que no céu se assenta junto do Pai, na terra recebe o trono de Davi. Aquele que reinou sempre, reina, com relação a nós, na herança de Davi, que assume para sempre. Alegremo-nos, amados irmãos, pois Aquele que é, em si, o Rei, se digna reinar em nós. Regozijemo-nos, pois vem reinar na terra a fim de que nós possamos reinar no céu. Sim, escutai o Apóstolo: “Se com Ele sofrermos, com Ele reinaremos” (2Tm 2, 12). Nasceu para nós e vem a nós precisamente para isso: para nos dar um reino! Ele mesmo o prometeu, com as palavras: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a origem do mundo” (Mt 25, 34). Preparado para vós, disse Ele, não para mim. Virá para ficar sempre entre nós, para estar sempre ante nossos olhos Aquele que agora só está em nosso coração. Virá trazer a confiança de sua familiaridade aos que participarão de seu reino. “E seu reino não terá fim!”
Alegrai-vos, os que credes em sua vinda, porque vos prometeu um reino, onde os cargos são irremovíveis e as dignidades perpétuas. Quem não ambiciona o infinito? Quem prefere o perecível? Quem, comprando por ouro as honrarias passageiras, não deseja receber gratuitamente as eternas?
Irmãos meus, trata-se aí de cargos, de postos, de dignidades, sim, mas, se não se der crédito à verdade do Evangelho, não se obterão tais prêmios eternos. Se nos agrada o serviço de Cristo, se aspiramos militar sempre sob as suas ordens, armemo-nos com as armas de Cristo, vigiemos, sejamos sóbrios, vençamos o demônio, detestemos os vícios. Para podermos alcançar os prêmios e coroas de Jesus Cristo, nosso Senhor, que com o Pai reina agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Notas:
- [1] Fl 2, 11;
- [2] Jo 1, 1;
- [3] 2Cor 5, 19;
- [4] Jo 17, 10;
- [5] 2Tm 2, 12;
- [6] Mt 25, 34.
GOMES, Cirilo Folch, OSB. Antologia dos Santos Padres. Coleção “Patrologia”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1985.

