Bispo de Alexandria, Confessor e Doutor da Igreja
Nascido c. 296, falecido em 2 de maio de 373

«A Criação e a Queda»

Em nosso livro anterior, tratamos detalhadamente de alguns dos principais aspectos do culto pagão dos ídolos e da origem desses falsos deuses. Pela graça de Deus, também demonstramos que o Verbo do Pai é divino, que todas as coisas devem sua existência à Sua vontade e poder, e que é por meio d’Ele que o Pai ordena a Criação e sustenta todas as coisas.

Agora, Macário, verdadeiro amante de Cristo, devemos aprofundar-nos ainda mais na fé de nossa sagrada religião e considerar como o Verbo se fez homem e habitou entre nós. Para compreender este mistério, é necessário recordar o que já foi dito. O Verbo do Pai, tão grandioso e sublime, manifestou-se corporalmente não por ser essa a Sua própria natureza, pois como Verbo Ele é incorpóreo. Ele assumiu um corpo humano por um único motivo: por amor e bondade de Seu Pai, para a nossa salvação.

Começaremos, portanto, com a criação do mundo e com Deus, seu Criador, pois o primeiro fato que deves compreender é este: a renovação da Criação foi realizada pelo mesmo Verbo que a criou no princípio. Diversas teorias foram propostas sobre a origem do Universo e da existência. Alguns defendem que tudo surgiu ao acaso, sem uma Inteligência criadora. Outros, como Platão, argumentam que Deus moldou todas as coisas a partir de uma matéria preexistente, assim como um carpinteiro trabalha a madeira. Entretanto, essa ideia limita a onipotência divina, pois implicaria que Deus depende de algo externo para criar. Os gnósticos, por sua vez, conceberam um artífice distinto do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, recusando-se a reconhecer o ensinamento das Escrituras.

No entanto, a fé cristã nos ensina que o Universo não se originou de si mesmo e que Deus, sendo infinito, criou todas as coisas a partir do nada, por meio de Seu Verbo. Assim está escrito no Gênesis:

“No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1).

E também no livro O Pastor:

“Crede primeiro e antes de tudo que há um só Deus, o qual criou e ordenou todas as coisas, trazendo-as do não ser à existência”.

O apóstolo Paulo reforça essa verdade ao afirmar:

“Pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela Palavra de Deus, de tal modo que as coisas visíveis provieram das coisas invisíveis” (Hb 11,3).

Deus é a fonte de toda bondade e criou tudo pelo Verbo, Jesus Cristo. Entre todas as criaturas terrenas, Ele concedeu especial atenção ao ser humano, que recebeu o privilégio único de refletir Sua própria imagem. Dotado de racionalidade, o homem foi chamado a compartilhar da inteligência divina e viver na bem-aventurança do paraíso.

Contudo, Deus permitiu ao homem o livre arbítrio. Se permanecesse fiel, viveria sem sofrimento e teria assegurada a imortalidade. Mas se desviasse do caminho e se corrompesse, cairia sob a lei natural da morte e da degradação. A Sagrada Escritura nos adverte sobre essa escolha:

“De todas as árvores do jardim podereis comer, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comereis, pois certamente morrereis” (Gn 2,16-17).

“Certamente morrereis”, isto é, não apenas morrer fisicamente, mas permanecer no estado de morte e corrupção. Essa condição do homem é fundamental para compreendermos por que o Verbo se fez carne. Nossa degradação tocou profundamente o amor divino, levando-O a tomar para Si a missão de nossa redenção.

O homem, criado para a imortalidade, afastou-se de Deus e voltou-se para o mal, caindo sob o jugo da morte. Em vez de preservar a comunhão divina, caminhou em direção à dissolução. Como nos ensina a Sabedoria:

“A observação de Suas Leis é a garantia da imortalidade” (Sb 6,18).

No entanto, ao transgredir, o homem perdeu essa proteção e se tornou vulnerável à decadência e à morte. O salmista descreve essa queda:

“Eu disse: ‘Sois deuses, e todos filhos do Altíssimo. Mas vós, como homens, morrereis e caireis como qualquer princípe'” (Sl 81,6-7).

Dessa forma, a queda do homem levou a humanidade à perda de sua dignidade original. Embora criados do nada, os homens receberam a graça da vida divina. Ao rejeitarem essa graça e se afastarem de Deus, tornaram-se escravos da corrupção.

A Escritura testemunha essa realidade:

“Deus criou o homem para a imortalidade e como uma imagem de sua própria eternidade; mas pela inveja do demônio, entrou no mundo a morte” (Sb 2,23-24).

O pecado trouxe a morte, e os homens, ao se entregarem ao mal, degeneraram cada vez mais, superando todos os limites. Violência, injustiça e corrupção espalharam-se, levando a humanidade à autodestruição. O Apóstolo Paulo descreve essa degradação:

“Suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro que é contra a natureza; e os homens também, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos um pelo outro, cometendo atos vergonhosos” (Rm 1,26-27).

Assim, a desordem do pecado exigiu uma resposta divina. A redenção veio através do próprio Verbo, que, por amor, se fez homem para restaurar a humanidade e reconduzi-la à vida eterna.

«Sobre a Encarnação do Verbo»

As conveniências da Encarnação

Esta grande obra realmente convinha sob todos os aspectos à bondade de Deus. Se um rei construiu uma casa ou vila, e esta, por negligência dos moradores vem a ser assaltada por ladrões, ele não a abandona; defende-a e protege-a como coisa própria, considerando, não o descaso dos locatários, mas o que lhe convém a si. Com maior razão, o Verbo divino do boníssimo Pai, vendo o gênero humano, sua criatura, desandar para a corrupção, não o abandonou; mas, pela oferta de seu próprio corpo, extinguiu a morte que se associara aos homens, por seu ensinamento corrigiu as negligências deles, por seu poder restaurou a raça humana. Disto podemos persuadir-nos consultando os teólogos enviados por Deus e lendo seus escritos, onde se tem que: “o amor de Cristo nos impele a este pensamento, o de que se um só morreu por todos, todos morreram; ora, ele morreu por todos, a fim de que não vivêssemos mais para nós, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou, nosso Senhor Jesus Cristo” (2Cor5,14-15). Lemos ainda: “nós vemos aquele que foi posto um pouco abaixo dos anjos, Jesus, coroado de glória e honra por causa dos sofrimentos de sua morte, a fim de que assim, pela graça de Deus, sua morte aproveite para todos os homens” . A seguir, a Escritura indica por que nenhum outro, senão o Verbo de Deus, se devia encarnar: “convinha que aquele, para quem tudo é e por quem tudo é, desejando levar um grande número de filhos à glória, aperfeiçoasse pelo sofrimento o autor da salvação deles” . Por aí se indica não caber a outro, mas ao Verbo de Deus, que tinha feito no princípio os homens, re erguê-los da corrupção que os atingira. Se o Verbo assumiu um corpo, foi para oferecê-la em sacrifício em prol dos corpos semelhantes ao seu – o que também ensinam as Escrituras: “como os filhos participam da carne e do sangue, ele participou dessas mesmas coisas, a fim de destruir por sua morte o demônio, que tinha o império da morte” Pois, pelo sacrifício de seu corpo, ele acabou com a lei que pesava sobre nós, renovou para nós o princípio da vida, dando-nos a esperança da ressurreição. Antes, foi por causa dos homens que a morte dominou sobre os homens; agora, pela encarnação do Verbo de Deus ela foi destruída, pois ressurgiu a vida, como diz o Apóstolo, portador de Cristo: “por um homem veio a morte, e por um homem a ressurreição dos mortos; da mesma forma que todos morrem em Adão, em Cristo todos serão vivificados” . Já não mais morremos como condenados, e sim como os que irão despertar; aguardamos a ressurreição universal, que a seu tempo nos mostrará o Senhor Deus, aquele que a criou e no-la concede. Eis a primeira razão da Encarnação do Salvador.

A recriação do homem

Dado que os homens se tinham pervertido na irracionalidade e que a impostura dos falsos deuses propagava por toda parte sua sombra, eclipsando o conhecimento do verdadeiro Deus, que haveria de fazer o Senhor? Guardar silêncio frente à situação e deixar os homens iludidos, ignorando seu Deus? Mas então para que houvera criado o homem à sua imagem? Ocorria simplesmente tê-lo criado sem razão; ou, do contrário, não o deixar viver a vida dos irracionais.Para que lhes houvera também comunicado, desde o início, a noção de Deus, se agora não se mostravam dignos de a receber? Melhor fora não a ter conferido no princípio. Pois que glória advém para o Criador, se os homens, suas criaturas, não o adoram e até pensam ser feitos por algum outro? Tê-los-ia criado para outros?

Um rei, mesmo humano, não permite que suas cidades se entreguem a estranhos e se submetam a eles. Adverte os súditos, envia-lhes mensageiros e, se necessário, vai em pessoa tentar comovê-los: unicamente para evitar que sirvam a senhor alheio e se inutilize a obra sua. Com mais razão, Deus não se apiedaria da criatura a fim de evitar que errasse longe de si e fosse servir a fantasmas inexistentes? Tanto mais que tal erro seria causa de ruína para o ser que um dia participou da imagem de Deus!

Que haveria pois de fazer o Senhor, senão renovar o que era nos homens a divina imagem, a fim de por ela chegarem ao seu conhecimento? Mas como se realizaria isto de outro modo que não pela presença da própria Imagem de Deus, nosso Salvador Jesus Cristo?

Sim, a coisa não seria realizável jamais por homens, pois também foram criados segundo a imagem; nem por anjos, que não são em si mesmos imagens. Veio, pois, o próprio Verbo de Deus, Imagem do Pai, a fim de recriar o homem segundo a divina imagem; e se esta obra não se podia fazer sem destruição, sem a corrupção da morte, convinha que ele assumisse um corpo mortal, para nele destruir a morte e renovar os homens segundo a divina imagem. Com vistas a tal obra nenhum outro se credenciava mais que a própria imagem do Pai. 

Se aos poucos se apagou uma efígie impressa na madeira, pelo acúmulo da pátina exterior, pode acontecer que sua renovação só se torne possível, ali no mesmo material, pela presença do modelo, cujos traços se desfiguraram. Não se irá recusar o material onde a figura fora antes impressa, mas se procurará compor nova imagem . Da mesma forma, o Filho santíssimo do Pai celeste, sendo a imagem do Pai, veio até nossa região, visando renovar o homem criado segundo seu modelo, visando remir os pecados daquele que estava perdido, a fim de reencontrá-lo; conforme as palavras da Escritura: “eu vim para encontrar e salvar o que estava perdido” . Assim, dirá também ele aos judeus: “se alguém não renascer, não poderá ver o reino de Deus” , aludindo, não a um renascimento a partir da mulher, como pensaram os judeus, mas ao renascimento que é a recriação da alma segundo a imagem divina.

Um bom mestre se interessa pelos alunos, procura descer, com ensinamentos mais simples, aos que não entendem as lições mais difíceis. Assim também faz o Verbo de Deus, conforme Paulo: “já que o mundo, com sua sabedoria, não chegou a conhecer a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem” . Estando os homens desviados da contemplação divina e mergulhados em profundo abismo, com os olhos voltados para baixo, a procurarem Deus na criatura e nas coisas sensíveis, fabricando para si mesmos deuses, de homens mortais e de demônios, eis que o Verbo divino, “filantropo” e salvador, assume um corpo e vem viver como homem entre os homens, atrai a si a percepção dos sentidos – para que pudessem conhecer a verdade e chegar ao Pai os mesmos que situavam a Deus entre os seres corpóreos. Sendo homens e tudo pensando humanamente, eis que eles agora, onde quer que se deixassem levar pela percepção sensorial, encontravam o ensinamento da verdade. Em sua fascinação pelas coisas criadas, viam agora que elas confessavam o Cristo Senhor. Em sua admiração pelos homens – que os levava a deificá-los – viam agora as obras do Salvador e percebiam que só ele, entre os humanos, é filho de Deus, não havendo em parte alguma obras comparáveis às do Verbo divino. Tinham sido seduzidos pelos demônios, eis que agora os viam expulsos pelo Senhor; e também por isto reconheciam-no como a única Palavra divina, confessando não serem deuses os demônios. Tinham sido obcecados pelo pensamento nos mortos, a ponto de renderem culto aos heróis, divinizados pelos poetas; eis porém que agora viam a ressurreição do Salvador e reconheciam a precedente ilusão, passando a atestar que o único verdadeiro Senhor é o Verbo de Deus, dominador da morte.

Foi para a obtenção desse resultado que ele apareceu como homem, e morreu, e ressuscitou. Através de suas obras fez empalidecerem as obras de quaisquer outros homens, podendo assim todos atrair a seu verdadeiro Pai, consoante a palavra: “eu vim salvar e encontrar o que estava perdido”.

Uma vez que o espírito humano caíra no sensível, o Verbo se abaixou ao ponto de se tornar visível corporalmente para chamar a si os homens, atrair para si os sentidos deles: viam-no humano, mas autor de obras superiores às humanas, persuadiam-se de que era o próprio Deus, o Verbo e a Sabedoria do verdadeiro Deus. Confira-se o que diz Paulo: “enraizados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade; conhecer enfim a caridade de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento; a fim de vos tornardes cheios da plenitude de Deus” . O Verbo se manifesta em toda parte, em cima e em baixo, na profundidade e na extensão, na altitude da Criação e na humildade da Encarnação, na profundeza dos limbos, na largura do mundo: tudo está cheio do conhecimento de Deus. E por isto mesmo ele não ofereceu, desde o primeiro momento de seu advento, seu sacrifício por nós, entregando o corpo à morte e ressuscitando-o; assim se teria tornado logo invisível! Mostrou-se visível, permaneceu longo tempo corporalmente, realizando obras e sinais que o fizessem conhecido não só como um homem mas como o Verbo de Deus. Sob um e outro aspecto mostrava sua filantropia, na Encarnação: fazia desaparecer a morte e nos renovava, revelando ao mesmo tempo, pelas mesmas obras, sua invisibilidade, levando-nos ao reconhecimento de que é o Verbo do Pai, o chefe e rei do universo.

Fonte:
  • GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas. São Paulo, 1979.

«Sobre a Divindade do Espírito Santo»

Carta de Santo Atanásio a Serapião

A carta de tua Caridade me foi entregue no deserto. E, embora fosse cruel a perseguição deflagrada contra nós pelos que nos querem desgraçar, consolou-nos com tua carta “o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (2Cor 1,3). Ao recordar tua caridade e os meus sinceros amigos, parecia-me que estáveis todos comigo. Alegrei-me profundamente ao receber tua carta, mas ao ler o seu conteúdo, novamente senti desolação pela notícia dos que intentam lutar contra a verdade.

Com efeito, prezado amigo, tu me escreves aflito por aqueles que, apesar de rejeitarem a blasfêmia dos arianos contra o Filho de Deus, fomentam pensamentos hostis contra o Espírito Santo. Eles não apenas o consideram criatura, mas o reduzem a um dos espíritos servis, distinguindo-o dos anjos apenas por grau. Ora, tal posição não passa de uma oposição simulada aos arianos e, na verdade, contradiz a santa fé. Assim como os arianos, negando o Filho, negam também o Pai, esses que desacreditam o Espírito Santo igualmente desacreditam o Filho. São duas facções que se dividem na insurreição contra a verdade e terminam na mesma blasfêmia contra a Trindade.

Refletindo sobre isso, senti grande tristeza, pois o diabo conseguiu, mais uma vez, enganar aqueles que combatem sua própria loucura. A princípio, decidi calar-me; no entanto, impelido por tua Reverência e por aqueles que desejam a verdade, escrevi esta carta para refutar essa ímpia heresia.

Quanto aos arianos, sua posição não nos é estranha. Negando o Verbo de Deus, é natural que também rejeitem seu Espírito. Portanto, não necessitam de refutações adicionais além das que já lhes foram feitas.

No entanto, aqueles que erram sobre o Espírito Santo devem ser confrontados. Como podem admitir que o Filho não é criatura — e nisso pensam corretamente — e, ao mesmo tempo, afirmar que o Espírito do Filho é uma criatura? Se, por razão da unidade do Verbo com o Pai, não admitem que o Filho seja um ser criado, por que chamam criatura ao Espírito Santo, que possui com o Filho a mesma unidade que este tem com o Pai? Separando o Espírito do Verbo, negam a divindade da Trindade e inserem nela uma natureza estranha, rebaixando-a ao nível das criaturas.

Se há Trindade, como de fato há, por que colocam o Espírito abaixo dela, como se fosse uma criatura? Tal concepção divide a unidade divina e conduz à negação da fé verdadeira.

Ademais, se negam a divindade do Espírito Santo, sua doutrina sobre o Filho também está corrompida, pois o Espírito procede do Pai e é próprio do Filho, sendo por Ele dado aos seus discípulos. Como disse Estevão, o grande mártir: “Os que resistem ao Espírito negam o Filho, e negando o Filho já não têm o Pai” (At 7,51).

Onde encontraram nas Escrituras que o Espírito Santo é chamado anjo? Pelo contrário, Ele é designado como Consolador, Espírito de filiação, Espírito de Deus e Espírito de Cristo. Nunca é chamado anjo, arcanjo ou espírito ministrante. Ao contrário, foi servido pelo anjo Gabriel, que disse a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35).

Os que se atrevem a chamar o Espírito de criatura alegam, ainda, que, se Ele não é criatura, então seria irmão do Verbo. E perguntam: “Se Ele é irmão, como o Verbo pode ser unigênito?” Tais argumentos revelam a soberba de quem deseja perscrutar os mistérios divinos, sobre os quais somente o Espírito de Deus tem conhecimento.

Aquele que santifica não pode ser igual àqueles que são santificados. As criaturas participam da santidade do Espírito, mas Ele não participa da santidade por outra fonte. Ele é chamado “Vivificante”, pois está escrito:

“Aquele que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos, vivificará também vossos corpos mortais por meio de seu Espírito, que habita em vós” (Rm 8,11).

O Senhor é a vida em si e “o autor da vida” (At 3,15). Foi o próprio Jesus quem disse:

“A água que eu darei ao fiel se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” e “Ele dizia isto do Espírito, que deveriam receber os que crèem nele” (Jo 7,39).

Se o Espírito fosse uma criatura, não poderíamos participar da natureza divina por meio d’Ele. Mas é exatamente por sua presença que somos unidos a Deus, conforme ensina Paulo:

“Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá; pois o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1Cor 3,16-17).

Se somos participantes de Cristo e de Deus, então o selo do Espírito em nós não pode ser criatura, mas é da própria natureza divina.

Assim, os que negam o Espírito Santo como Deus se afastam da verdade. Pois, como diz João:

“Sabemos que permanecemos em Deus e Ele em nós, porque nos deu de seu Espírito” (1Jo 4,13).

Negar a divindade do Espírito é negar a plenitude da Trindade, apartando-se da verdadeira fé.

«Seguir a Cristo pelo caminho certo»

(Vida de Santo Antão, 19-20)

Um dia, os monges vieram ter com Antão e pediram-lhe que lhes dirigisse a palavra. Ele respondeu-lhes: Eis que começámos a avançar pela estrada da virtude; continuemos agora em frente, a fim de atingirmos a meta (Fil 3, 14). Que ninguém olhe para trás como a mulher de Lot (Gn 19, 26), porque o Senhor disse: “Quem mete a mão ao arado e olha para trás não é apto para o Reino dos Céus.” Olhar para trás mais não é do que alterar o próprio objectivo e retomar o gosto pelas coisas deste mundo. Nada receeis quando ouvirdes falar da virtude, nem vos espanteis com esta palavra. Porque a virtude não está longe de nós, nem nasce fora de nós; é coisa que nos diz respeito, e é simples, desde que o queiramos.

Os pagãos deixam o seu país e atravessam os mares para irem estudar letras. Nós não temos necessidade de abandonar o nosso país para ir para o Reino dos Céus, nem de atravessar o mar para adquirir a virtude. Porque o Senhor disse: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17, 21). A virtude apenas precisa, pois, do nosso querer, dado que está em nós e nasce de nós. Se a alma conserva a parte inteligente que é conforme à sua natureza, a virtude pode nascer. A alma encontra-se no seu estado natural quando permanece tal como foi feita; e foi feita muito bela e muito recta. Era por isso que Josué, filho de Nun, dizia: “Inclinai os vossos corações para o Senhor, Deus de Israel” (Jos 24, 23). E João Baptista: “Endireitai as suas veredas” (Mt 3, 3). Para a alma, ser recta consiste em manter a sua inteligência tal como foi criada. Quando, pelo contrário, se desvia do seu estado natural, nessa altura fala-se do vício da alma. Não se trata, pois, de uma coisa difícil. […] Se tivéssemos de procurá-la fora de nós, seria realmente difícil; mas, visto que está em nós, evitemos os pensamentos impuros e guardemos a alma para o Senhor, como se tivéssemos recebido um depósito, a fim de que Ele reconheça a nossa obra, encontrando a nossa alma tal como a fez.

«Quando tiverdes erguido o Filho do homem, compreendereis que Eu Sou»

Alguém poderia dizer: Se Cristo tinha mesmo de entregar o seu corpo à morte por nós todos, porque é que não morreu normalmente, como homem? porque é que tinha de se deixar crucificar? Poder-se-ia, na verdade, dizer que era mais conveniente para Ele entregar o seu corpo de uma maneira digna do que suportar a infâmia de tal morte… Esta objeção é demasiado humana: o que aconteceu ao Salvador é verdadeiramente divino e digno da sua divindade por várias razões.

Em primeiro lugar, porque a morte que acontece aos homens tem a ver com a fraqueza da sua natureza; não podendo durar indefinidamente, eles desagregam-se com o tempo. Chegam as doenças e, tendo perdido as suas forças, acabam por morrer. Mas o Senhor não é fraco; Ele é a Força de Deus, o Verbo de Deus, a própria Vida. Se Ele entregasse o corpo em privado, num leito, à maneira dos homens, teriam pensado… que Ele não tinha nada a mais do que os outros homens… Não convinha que o Senhor adoecesse, Ele que curava as doenças dos outros…

Então porque é que Ele não afastou a morte, tal como tinha afastado a doença? Porque Ele possuía um corpo precisamente para isso e para não pôr entraves à ressurreição… Mas, dirá talvez alguém, Ele deveria ter evitado a conjura dos seus inimigos, para conservar o seu corpo absolutamente imortal. Que esse aprenda, então, que também isso não convinha ao Senhor. Tal como não era digno do Verbo de Deus, por ser a Vida, dar a morte ao seu corpo por sua própria iniciativa, também não lhe convinha fugir da morte que outros lhe queriam dar… Morrer como morreu não significou de modo algum a fraqueza do Verbo, mas fê-lo ser conhecido como Salvador e Vida… O Salvador não veio experimentar a sua própria morte mas a morte dos homens.

«Todos quantos sofriam de alguma coisa procuravam tocar-Lhe»

(Sobre a Encarnação do Verbo)

O Verbo de Deus, incorpóreo, incorruptível e imaterial, chegou à região que habitamos, da qual nunca estivera, contudo, afastado. Com efeito, não havia deixado nenhuma parte da criação privada da sua presença, dado que tudo preenchia, Ele que mora junto a seu Pai. Mas tornou-se presente, abaixando-se por causa do seu amor por nós, e manifestou-se a nós. Teve piedade da nossa raça, teve compaixão da nossa fraqueza, condescendeu com a nossa condição corruptível.


Não aceitou que a morte tivesse domínio sobre nós; não quis ver perecer aquilo que tinha começado, nem fracassar o que seu Pai tinha realizado ao criar os homens. Assumiu, pois, um corpo, e um corpo que não é diferente do nosso. No seio da Virgem construiu para si mesmo o templo do seu corpo; fez dele um instrumento adaptado, para se dar a conhecer, e para nele morar. Depois de ter assumido, entre os nossos corpos, um corpo da mesma espécie, e dado que estamos todos submetidos à corrupção da morte, entregou-o à morte por todos nós, oferecendo-o a seu Pai. E fê-lo por amor aos homens.