A Virgindade Perpétua de Maria

Tratado de São Jerônimo contra Helvídio

Tradução:

José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto

Este tratado surgiu por volta do ano 383 d.C., quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, durante o pontificado do Papa Dâmaso. As únicas informações contemporâneas que se conservam sobre Helvídio provêm deste texto, fornecidas pelo próprio Jerônimo.A questão central que deu origem a este tratado foi: teria a Mãe de Nosso Senhor permanecido virgem após o nascimento de seu Filho? Helvídio afirmava que as menções aos “irmãos” e “irmãs” do Senhor nos Evangelhos provavam que Maria teria tido outros filhos, baseando sua opinião nos escritos de Tertuliano e Vitorino. Dessa perspectiva, concluía-se que a virgindade ocuparia uma posição inferior ao casamento. Jerônimo, por sua vez, defende a visão oposta, sustentando três proposições contra Helvídio:

  1. José era o suposto marido de Maria, mas não o era de fato;
  2. Os “irmãos” do Senhor eram seus primos (parentes), não irmãos de verdade;
  3. A virgindade é superior ao estado matrimonial.

A primeira proposição é desenvolvida nos capítulos 3 a 8, fundamentando-se no relato de Mateus 1,18-25, especialmente nas expressões “antes que coabitassem” (cap. 4) e “não a conheceu até que” (caps. 5-8).

A segunda proposição aborda a expressão “filho primogênito” (caps. 9-10), que, segundo Jerônimo, aplica-se tanto ao primeiro de uma série de filhos quanto a um filho único. Quanto à menção de irmãos e irmãs de Jesus, Jerônimo assegura que eram filhos de outra Maria, esposa de Cléofas ou Clopas (caps. 11-16), citando diversos escritores da Igreja para embasar sua posição (cap. 17).

Na terceira e última parte, para sustentar a superioridade da virgindade sobre o casamento, Jerônimo argumenta que não apenas Maria, mas também José, mantiveram seu estado virginal (cap. 19). Ele afirma, ainda, que, embora o casamento possa ser um estado santo, apresenta grandes obstáculos à oração (cap. 20), e que as Escrituras ensinam que a virgindade e a continência estão mais alinhadas ao desejo de Deus do que o casamento (caps. 21-22).

Parte I: Introdução

Capítulo 1

Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos para responder a um panfleto escrito por um certo Helvídio. Demorei a fazê-lo, não porque fosse difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem cultura, que mal teve contato com os rudimentos do saber, mas porque temi não oferecer uma resposta à altura, capaz de desmoronar seus argumentos.

Havia também a preocupação de que um discípulo confuso — o único no mundo que se considera ao mesmo tempo clérigo e leigo; o único, também, que julga que a eloquência reside na tagarelice e que falar mal de alguém torna o testemunho digno de boa-fé — pudesse, ao ser confrontado, blasfemar ainda mais, caso lhe fosse dada nova oportunidade para discutir. Ele, então, como se estivesse em um pedestal, passaria a propagar suas opiniões por toda parte.

Temia, ainda, que, ao cair na realidade, ele atacasse seus adversários de forma ainda mais ofensiva. Contudo, embora todos esses motivos parecessem justos para manter o silêncio, deixaram de me influenciar no momento em que um escândalo se instaurou entre os irmãos, que começaram a dar crédito a esse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar pela raiz essa árvore estéril, lançando-a, junto com suas folhagens infrutíferas, ao fogo, de modo que Helvídio — que nunca aprendeu a falar — possa, enfim, aprender a controlar sua língua.

Capítulo 2

Invoco o Espírito Santo para que se expresse por minha boca e, assim, defenda a virgindade da bem-aventurada Maria. Clamo ao Senhor Jesus para que proteja o santíssimo ventre onde Ele permaneceu por cerca de dez meses, sem qualquer suspeita de colaboração sexual. Rogo também a Deus Pai que demonstre que a Mãe de Seu Filho — que se tornou mãe antes de se casar — permaneceu virgem mesmo após o nascimento de seu Filho.

Não pretendemos recorrer à eloquência, nem usar armadilhas lógicas ou subterfúgios aristotélicos. Empregaremos as próprias palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que usou contra nós, para que perceba que, embora tenha lido o que está escrito, foi incapaz de compreender a conclusão de uma fé sólida.

Parte II: José era o suposto marido de Maria; não era marido de fato

Capítulo 3

A primeira afirmação de Helvídio é: “Mateus diz: ‘O nascimento de Jesus Cristo foi assim: quando sua mãe Maria estava prometida a José, antes de coabitarem, encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. José, seu marido, sendo um homem justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em repudiá-la em segredo. Enquanto pensava nisso, um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse: “José, filho de Davi, não temas tomar Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo”’. Notem”, prossegue ele, “que a palavra usada é ‘prometida’, e não ‘confiada’, como vocês dizem; é evidente que ela só estava prometida porque um dia se casaria. O evangelista não diria ‘antes de coabitarem’ se não fossem coabitar no futuro, assim como ninguém diria ‘antes de jantar’ se a pessoa não fosse jantar. O anjo também a chama ‘tua esposa’ e a apresenta como unida a José. A seguir, somos chamados a ouvir a Escritura: ‘José despertou do sono e fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, tomando-a como esposa; e não a conheceu até que deu à luz seu filho’”.

Capítulo 4

Analisemos cada ponto, pois, seguindo o caminho dessa impiedade, mostraremos que ele [Helvídio] se contradiz. Ele admite que [Maria] estava “prometida” e que o passo seguinte seria tornar-se esposa de quem lhe estava prometido. Chama-a novamente de “esposa” e diz que a única razão para estar prometida seria o futuro casamento. Temendo que não o compreendêssemos bem, acrescenta: “A palavra usada é ‘prometida’, e não ‘confiada’, ou seja, ela ainda não era esposa, nem havia sido unida pelo contrato de casamento”.

Mas quando prossegue: “O evangelista jamais usaria tais palavras se eles não fossem se unir no futuro, pois não se diz ‘antes de jantar’ se a pessoa não for jantar”, sinceramente não sei se devo lamentar ou rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se, ao dizer “Antes de jantar no porto, naveguei para a África”, tais palavras obrigatoriamente demonstrassem que a pessoa jantou no porto. Se eu dissesse: “O apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso em Roma”, ou ainda: “Helvídio, antes de se arrepender, morreu”, acaso Paulo teria ido à Espanha após a prisão, ou Helvídio se arrependeria após a morte, mesmo que a Escritura diga: “No Sheol, quem vos dará graças?”

Não podemos entender a preposição “antes” — embora muitas vezes indique ordem temporal — também como ordem de pensamento? Assim, não é necessário que nossos pensamentos se concretizem, caso uma causa suficiente os impeça. Quando o evangelista diz “antes que coabitassem”, refere-se apenas ao tempo imediatamente anterior ao casamento, mostrando que o processo estava bem avançado, pois ela já estava prometida e prestes a se tornar esposa. Segundo [o evangelista], antes de se beijarem e abraçarem, antes da consumação do casamento, ela se encontrou grávida. E ela foi destinada exclusivamente a José, que guardou com zelo o ventre cada vez maior de sua prometida, com olhar inquieto, mas, a essa altura, quase com o privilégio de um marido.

Embora possa parecer — conforme o exemplo citado — que ele teve relações com Maria após o parto, seu desejo poderia ter desaparecido pelo fato de ela já ter concebido antes. E, embora se diga em sonho a José: “Não temas receber Maria por tua esposa” e, depois: “José despertou do sono e fez como o anjo lhe ordenara, tomando-a por esposa”, não devemos nos preocupar com isso, pois, embora seja chamada “esposa”, ela apenas deixou de ser prometida. Sabemos que é costume na Escritura dar esse título aos noivos.

A seguinte evidência, extraída do Deuteronômio, confirma isso: “Se um homem”, diz o escritor sagrado, “encontrar uma mulher prometida no campo e a violentar, deve ser morto, pois humilhou a esposa de seu próximo”; e, em outro lugar: “Se uma virgem for prometida a um marido e um homem a encontrar na cidade e a violentar, levai-os ao portão da cidade e apedrejai-os até a morte; a mulher, porque não gritou, estando na cidade, e o homem, porque humilhou a esposa de seu próximo. Assim eliminareis o mal do meio de vós”; e ainda: “Que homem é este que tem uma esposa prometida e ainda não a recebeu? Que volte para casa, para que não morra na batalha e outro a despose”.

Se alguém duvida por que a Virgem concebeu após estar prometida [a José], já que não estava prometida a mais ninguém ou, nos termos da Escritura, estava sem marido, explico três razões:

  1. Pela genealogia de José, Maria tinha parentesco com ele, e sua origem também precisava ser demonstrada;
  2. Para que ela não fosse enquadrada na Lei de Moisés e apedrejada como adúltera;
  3. Para que, na fuga ao Egito, tivesse a segurança proporcionada por um guardião, de preferência um marido.

Quem, naquela época, acreditaria na palavra da Virgem de que ela concebera pelo Espírito Santo e que o anjo Gabriel lhe aparecera para anunciar o propósito de Deus? Não a chamariam todos de adúltera, como fizeram com Susana? Mesmo hoje, quando quase toda a terra abraçou a fé, os judeus não afirmam que as palavras de Isaías — “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho” — são equívocas, pois o termo hebraico almah significa “mulher jovem”, enquanto bethulah, que denota “virgem”, não é usado? Essa questão será abordada mais adiante.

Por fim, exceto José, Isabel, a própria Maria e talvez alguns poucos que ouviram a verdade de suas bocas, todos supunham que Jesus era filho de José. Essa presunção era tão forte que até os evangelistas, expressando a opinião corrente — regra correta para qualquer historiador —, o chamavam de pai do Salvador. Por exemplo: “Movido pelo Espírito, ele (Simeão) veio ao Templo. Então, os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as prescrições da Lei a seu respeito”; e ainda: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa”; e mais adiante: “Tendo completado os dias, retornaram, mas o menino Jesus permaneceu em Jerusalém, e seus pais não o sabiam”.

Note-se que a própria Maria respondeu ao anjo Gabriel: “Como se sucederá isso, se não conheço varão?”, referindo-se a José; e disse mais: “Filho, por que fizeste isso conosco? Teu pai e eu te procurávamos aflitos”. Não usamos aqui, como muitos fazem, o discurso dos judeus ou dos escarnecedores. Os evangelistas chamam José de “pai”, e Maria o confirma como tal. Não que José fosse realmente o pai do Salvador — como já disse —, mas, para preservar a reputação de Maria, todos o viam como pai, pois ele ouvira a advertência do anjo: “José, filho de Davi, não temas tomar Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo”. Ele pensava em repudiá-la em segredo, o que demonstra claramente que o filho não era dele.

Ao expor tudo isso, com o objetivo de oferecer uma instrução imparcial mais do que responder a um oponente, mostramos por que José era chamado pai de Nosso Senhor e por que Maria era considerada esposa de José. Isso também explica por que certas pessoas foram chamadas de “seus irmãos”.

Capítulo 5

Esse último ponto, porém, terá seu lugar apropriado mais adiante.

Passemos agora a outro tópico. A passagem em discussão é: “José despertou do sono e fez como o anjo lhe ordenara, tomando-a como esposa; e não a conheceu até que deu à luz um filho, e ele lhe deu o nome de Jesus”. Antes de tudo, é inútil que nosso oponente tente demonstrar, de forma tão elaborada, que essas palavras se referem à cópula sexual, especialmente na compreensão intelectual: qualquer um pode negá-lo, e toda pessoa sensata pode perceber a tolice da refutação que Helvídio se esforça por sustentar. Ele quer nos convencer que o advérbio “até que” implica um tempo fixo e definitivo, após o qual ocorre o evento que antes não se realizara, como neste caso: “e não a conheceu até que deu à luz um filho”.

Segundo ele, é evidente que Maria foi conhecida depois, tendo apenas aguardado o tempo necessário para o nascimento de seu filho. Para defender sua posição, [Helvídio] acumula textos sem critério, como um gladiador cego que brandisse a espada a esmo, proferindo disparates com sua língua ruidosa e acabando por não ferir ninguém além de si mesmo.

Capítulo 6

Nossa resposta é breve: as palavras “conhecer” e “até que”, na linguagem da Sagrada Escritura, têm duplo significado. Quanto a “conhecer”, o próprio [Helvídio] nos ofereceu uma dissertação mostrando que pode referir-se à relação sexual, mas ninguém duvida que também signifique percepção ou entendimento, como em: “O menino Jesus permaneceu em Jerusalém, e seus pais não o sabiam”.

Já que provamos que ele seguiu o uso da Escritura neste caso, quanto à expressão “até que”, ele será completamente refutado pela autoridade da mesma Escritura, que várias vezes a emprega sem limitação temporal. Por exemplo, Deus diz por meio do profeta: “Até a vossa velhice, Eu sou o mesmo”; acaso Ele deixará de ser Deus após essas pessoas envelhecerem? No Evangelho, o Salvador diz aos apóstolos: “Estarei convosco até a consumação do mundo”; será que, ao chegar o fim dos tempos, o Senhor abandonará seus discípulos, deixando-os desprovidos de Sua companhia quando estiverem julgando as doze tribos de Israel sobre os doze tronos?

Paulo, escrevendo aos Coríntios, declara: “[Cada um, porém, na sua ordem:] Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim, quando Ele entregar o reino a Deus Pai, após destruir todo domínio, toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés”. Certos de que a passagem trata da natureza humana de Nosso Senhor, não podemos negar que essas palavras são Daquele que sofreu na cruz e depois se sentou à direita de Deus. O que Ele quer dizer com “é necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés”? Que o Senhor reinará apenas até subjugá-los e, depois, deixará de reinar? É evidente que seu reino começará plenamente quando seus inimigos estiverem sob seus pés.

Também Davi, na Quarta Canção da Ascensão, diz: “Assim como os olhos dos servos olham para a mão de seu mestre, e os olhos da serva para a mão de sua senhora, assim nossos olhos olham para o Senhor, nosso Deus, até que Ele tenha misericórdia de nós”. Será que o profeta, buscando a misericórdia de Deus, desviará o olhar para o chão assim que a obtiver? [Certamente não,] embora ele diga em outro lugar: “Meus olhos se consomem aguardando tua salvação e a palavra da tua justiça”.

Poderia citar inúmeras passagens que atestam esse uso e cobriria com uma nuvem de provas a verbosidade de nosso contendente. Contudo, acrescentarei apenas algumas e deixarei que o leitor descubra outras semelhantes por si mesmo.

Capítulo 7

A Palavra de Deus diz em Gênesis: “Entregaram a Jacó todos os deuses estranhos que tinham em mãos e as argolas que pendiam de suas orelhas; Jacó os escondeu debaixo do carvalho junto a Siquém, e eles permanecem perdidos até o dia de hoje”. No final do Deuteronômio, lemos: “Assim, Moisés, servo do Senhor, morreu na terra de Moab, conforme a palavra do Senhor. Foi sepultado no vale, na terra de Moab, defronte de Beth-Peor; até o dia de hoje, ninguém sabe o lugar de sua sepultura”.

A expressão “até o dia de hoje” refere-se claramente ao tempo da composição da história, seja você prefira atribuir o Pentateuco a Moisés ou a Esdras, que o teria reeditado. Não faço objeção a nenhuma das hipóteses. A questão é: se “até o dia de hoje” indica a época da publicação ou composição desses livros, por que [Helvídio] não prova — agora que muitos anos se passaram desde então — que os ídolos escondidos sob o carvalho ou a sepultura de Moisés foram descobertos? Ele insiste, com excessiva obstinação, que algo não pode ocorrer dentro do período delimitado por “até que”, mas deve ocorrer exatamente após esse ponto.

Ele faria bem em prestar atenção ao idioma da Escritura e compreender que, estando mergulhado em confusão, certas coisas parecem ambíguas quando não são claramente declaradas, enquanto outras são deixadas assim para exercitar nosso intelecto. Se, mesmo quando o evento ainda estava fresco na memória dos que conviveram com Moisés, o local de sua sepultura já era desconhecido, quanto mais agora, após tantos anos!

Da mesma forma, devemos interpretar o que se diz sobre José. O evangelista destacou uma circunstância que poderia causar escândalo — que Maria não foi conhecida por seu marido até dar à luz — para nos assegurar que ela, de quem José se absteve enquanto havia dúvidas sobre a visão, não foi conhecida após o parto.

Capítulo 8

Em resumo: gostaria de saber por que José se privaria [de Maria] até o dia em que ela deu à luz. Helvídio certamente responderia: “Porque ouviu o anjo dizer: ‘pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo’”. Nós, então, retrucaríamos que ele também ouviu: “José, filho de Davi, não temas tomar Maria como tua esposa”. A razão pela qual lhe foi proibido repudiá-la era que ele não a considerava adúltera. Seria verdade, então, que o anjo lhe ordenou não ter relações com ela? Não está claro que a advertência foi para que não a abandonasse? Poderia um homem justo pensar em se aproximar dela após saber que o Filho de Deus estava em seu ventre?

Ótimo! Vamos supor que o mesmo homem que deu tanto crédito a um sonho não ousou tocar sua esposa mesmo depois, quando ouviu dos pastores que o anjo do Senhor descera dos céus e lhes dissera: “Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, o Cristo Senhor”; e quando a multidão celeste se uniu ao anjo, entoando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”; e ainda quando o justo Simeão abraçou o menino e exclamou: “Agora, Senhor, podes levar teu servo, pois meus olhos viram tua salvação, conforme tua palavra”; e também quando viu a profetisa Ana, os Magos, a Estrela, Herodes e os anjos…

Eu diria, então: Helvídio quer nos fazer crer que José, plenamente ciente de tantas maravilhas, ousaria tocar o templo de Deus, a morada do Espírito Santo, a Mãe de seu Senhor? Maria guardava todos esses eventos em seu coração. Vocês não podem alegar, sem vergonha, que José desconhecia tudo isso, pois Lucas nos diz: “Seu pai e sua mãe ficavam maravilhados com as coisas que se diziam a Seu respeito”.

E vocês ainda afirmam, arrogantemente, que a leitura dos manuscritos gregos é corrupta, embora seja exatamente isso que todos os escritores gregos registraram em seus livros, assim como muitos latinos interpretaram da mesma forma. Nem precisamos considerar as variações nas cópias, pois todos os registros existentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, estão assim desde que foram traduzidos para o latim. Devemos crer que a água da fonte é mais pura que a do rio.

Parte III: Os "irmãos" do Senhor eram primos (parentes); não irmãos de fato

Capítulo 9

Helvídio poderá responder: “O que você diz é, a meu ver, insignificante. Seus argumentos se perderam no tempo, e essa discussão demonstra mais astúcia do que verdade. Por que a Escritura não diz, como em Tamar e Judá, ‘ele a tomou como esposa e jamais a conheceu’? Por que Mateus não usou essas palavras se queria expressar esse significado? Ele diz claramente: ‘e não a conheceu até que deu à luz um filho’. Logo, após o parto, ele certamente a conheceu, pois se privou dela até esse momento”.

Capítulo 10

Se vocês são tão contenciosos, deveriam testar seu mestre com suas próprias ideias. Não devem separar o parto do intercurso sexual. Não devem citar: “Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda por sete dias, como nos dias da impureza de suas regras. No oitavo dia, circuncidar-se-á o prepúcio do menino, e por trinta e três dias ela ficará purificando-se de seu sangue, sem tocar em nada sagrado”, e coisas semelhantes. Devem lembrar que, se José se aproximasse dela, estaria sujeito à reprovação de Jeremias: “São como cavalos bem nutridos, relinchando cada um pela mulher do próximo”.

De outro modo, como explicar as palavras “e não a conheceu até que deu à luz um filho”, se ele ainda deveria esperar o fim do tempo de purificação? Caso contrário, seu desejo sofreria um atraso ainda maior, de 40 dias. A mãe precisava se purificar da mácula de seu filho recém-nascido, que ficava aos cuidados da parteira, enquanto o marido sustentava a esposa enfraquecida. Portanto, é certo que [José e Maria] se casaram, pois o evangelista não pode ser acusado de mentir. Mas Deus nos livre de pensar tais coisas sobre a Mãe do Salvador e um homem justo! Nenhuma parteira assistiu ao nascimento de Jesus; nenhuma mulher se intrometeu ali. Com suas próprias mãos, [Maria] envolveu o Menino em panos; ela mesma foi mãe e parteira. Como nos é relatado: “O colocou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na pousada”. Essa declaração refuta as histórias apócrifas, pois foi Maria quem o envolveu em panos, tornando impossível a maliciosa ideia de Helvídio, já que não havia local adequado para o ato sexual naquela pousada.

Aqui está a continuação do texto revisado, corrigido em português e organizado para maior clareza e fluidez, mantendo o conteúdo original e respeitando o tom formal do tratado de São Jerônimo. As correções incluem ajustes gramaticais, ortográficos, de pontuação e de estilo, além da eliminação de repetições desnecessárias e da modernização de termos arcaicos, quando apropriado.

Capítulo 11

Agora oferecerei uma resposta mais completa sobre as expressões “antes que coabitassem” e “não a conheceu até que deu à luz um filho”. Antes, porém, devo observar que minha argumentação segue a ordem dos pontos levantados por Helvídio até o terceiro tópico. Ele alegará que Maria teve outros filhos, citando a passagem: “José dirigiu-se à cidade de Davi para se inscrever com Maria, sua noiva, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito” (Lc 2,4-7). Com isso, Helvídio se esforça para provar que o termo “primogênito” só se aplica a alguém que tem irmãos, que, no caso, seriam filhos dos mesmos pais.

Capítulo 12

Nossa posição é a seguinte: todo filho único é primogênito, mas nem todo primogênito é filho único. Entendemos por “primogênito” não apenas aquele que pode ser seguido por outros, mas também aquele que não teve predecessores. Assim diz o Senhor a Abraão: “Todo aquele que abrir o útero, de toda carne, será oferecido ao Senhor, tanto de homens como de animais; será teu. Contudo, os primogênitos dos homens deverão ser resgatados; também os primogênitos dos animais impuros resgatarás” (cf. Ex 13,12-13).

A Palavra de Deus define “primogênito” como todo aquele que abre o útero. Se esse título pertencesse apenas aos que têm irmãos mais jovens, os sacerdotes não poderiam reivindicar o primogênito até que outros filhos nascessem. Caso contrário, se não houvesse novos partos, seria necessário provar a condição de primogênito, e não apenas de filho único. Lê-se ainda: “Aqueles que devem ser resgatados, com um mês de idade, serão resgatados por cinco siclos, conforme o siclo do santuário. Mas o primogênito de um boi, de uma ovelha ou de uma cabra não resgatarás; eles são sagrados” (cf. Nm 18,16-17). A Palavra de Deus me obriga a dedicar a Ele o que quer que abra o útero, se for primogênito de animais puros; se de impuros, devo resgatá-lo, entregando o valor ao sacerdote.

Poderia retrucar: “Por que me limitais ao curto prazo de um mês? Por que falais de primogênito, se não posso afirmar que outros irmãos nascerão? Esperai até o segundo filho!” Não digo ao sacerdote que o nascimento do segundo é o que confere ao primeiro a condição de primogênito. Não seria ele, ao pé da letra, justificado em me chamar de louco, se eu, em vez de afirmar que “primogênito” é o que rompe o útero, restringisse essa condição àqueles que terão irmãos depois? Tomemos o caso de João Batista: concordamos que foi filho único. Pergunto, então: não foi ele também primogênito e sujeito à lei? Não há dúvida disso.

Constantemente, a Escritura fala assim do Salvador: “Quando chegou o dia de sua purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: ‘Todo macho que abrir o útero será consagrado ao Senhor’, e para oferecer em sacrifício, conforme a Lei, um par de rolinhas ou duas pombas jovens” (Lc 2,22-24). Se essa lei se aplicasse apenas aos primogênitos com irmãos subsequentes, ninguém estaria obrigado por ela sem provar que houve outros filhos. Mas, como até o filho único é sujeito à lei do primogênito, deduzimos que “primogênito” é aquele que abre o útero da mãe, sem predecessor, e não necessariamente aquele cujo nascimento é seguido por outro.

Moisés escreve no Êxodo: “Ao passar da meia-noite, o Senhor ferirá todos os primogênitos da terra do Egito, desde o primogênito do Faraó, que reina em seu trono, até os primogênitos dos cativos nas prisões, e todos os primogênitos do gado” (Ex 12,29). Dizei-me: os que pereceram pela mão do Exterminador eram apenas primogênitos com irmãos, ou também filhos únicos? Se apenas os que tinham irmãos fossem primogênitos, os filhos únicos teriam escapado. Se, porém, os filhos únicos também foram mortos, isso contradiz vossa tese, pois a sentença recaía apenas sobre os primogênitos. Devereis, então, ou isentar os filhos únicos da pena, tornando-vos ridículos, ou admitir que foram mortos, provando nossa causa — embora sem vosso mérito —, pois os filhos únicos eram também primogênitos.

Capítulo 13

A última proposição de Helvídio era esta: ele buscava demonstrar, ao tratar dos primogênitos, que os Evangelhos citam irmãos de Jesus. Por exemplo: “Sua mãe e seus irmãos estavam lá fora, procurando falar com Ele” (Mt 12,46). E em outro lugar: “Depois disso, Ele foi para Cafarnaum com sua mãe e seus irmãos” (Jo 2,12). Ainda: “Seus irmãos lhe disseram: ‘Parte daqui e vai para a Judeia, para que teus discípulos vejam as obras que fazes. Ninguém age em segredo se quer ser conhecido. Se fazes isso, manifesta-te ao mundo’” (Jo 7,3-4). João acrescenta: “Pois nem seus irmãos acreditavam nele” (Jo 7,5).

Também Marcos e Mateus relatam: “Chegando à sua terra, ensinava nas sinagogas, de modo que se admiravam e diziam: ‘De onde lhe vêm essa sabedoria e esses prodígios? Não é o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não vivem entre nós?’” (Mt 13,54-56; Mc 6,3). Lucas, nos Atos, diz: “Todos perseveravam unânimes na oração, com as mulheres, Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos” (At 1,14).

Paulo, o Apóstolo, também os menciona, confirmando a precisão histórica: “Subi a Jerusalém para conhecer Pedro e fiquei com ele quinze dias. Não vi nenhum outro apóstolo, senão Tiago, o irmão do Senhor” (Gl 1,18-19). E ainda: “Não temos direito de comer e beber? Não temos direito de levar conosco uma esposa cristã, como os outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas?” (1Cor 9,4-5).

Para evitar que alguém aceite o testemunho dos judeus — pois foi deles que ouvimos os nomes desses irmãos —, mantemos que os conterrâneos de Jesus caíram no mesmo erro que os judeus sobre o pai, José. Helvídio, porém, faz uma observação severa e exclama: “Os mesmos nomes aparecem em outro lugar nos Evangelhos, e as mesmas pessoas são ali irmãos do Senhor e filhos de Maria!”

Mateus diz: “Muitas mulheres estavam ali, observando de longe; haviam seguido Jesus desde a Galileia, servindo-o. Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mt 27,55-56). Logo após: “E muitas outras que subiram com Ele a Jerusalém” (Mt 27,56). Lucas também registra: “Estavam presentes Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago, e as outras mulheres com elas” (Lc 24,10).

Capítulo 14

Repito isso para adverti-lo a não fazer falsas afirmações, sugerindo que omiti tais passagens por serem favoráveis a vós, e que minha interpretação foi distorcida por argumentos evasivos, não pela evidência da Escritura. Helvídio diz: “Notai: Tiago e José são filhos de Maria, os mesmos chamados irmãos pelos judeus. Maria é mãe de Tiago, o menor, e de José. Tiago é dito ‘o menor’ para distingui-lo de Tiago, o maior, filho de Zebedeu, como Marcos afirma em outro lugar. Maria Madalena e Maria, mãe de José, estavam onde Jesus foi sepultado. Passado o sábado, compraram aromas para ungir o corpo” (cf. Mc 16,1). E, como esperado, ele prossegue: “Quão pobre e ímpia é a visão de Maria se afirmamos que, enquanto outras mulheres cuidavam do sepultamento de Jesus, ela, Sua mãe, estava ausente; ou se inventamos outra Maria. Tudo isso é refutado pelo Evangelho de João, que testemunha sua presença, pois o Senhor, da cruz, a confiou como mãe viúva aos cuidados de João. Ou deveríamos supor que o evangelista cometeu erro tão grave, chamando-a mãe daqueles que os judeus conheciam como irmãos de Jesus?”

Capítulo 15

Que cegueira, que furiosa loucura o leva à ruína! Dizeis que a mãe do Senhor estava ao pé da cruz e que foi confiada a João por sua viuvez e solidão. Mas, segundo vossa própria tese, não tinha ela quatro filhos e várias irmãs para confortá-la? Chamais-lhe viúva, termo que a Escritura não usa. Embora citeis os Evangelhos a todo momento, apenas as palavras de João vos desagradam. Afirmais, de passagem, que ela estava presente à cruz, mas pareceis evitar mencioná-lo de propósito, omitindo as mulheres que a acompanhavam. Perdoar-vos-ia se fosseis ignorante, mas vejo que há intenção em vossas omissões.

Permiti-me citar João: “Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, esposa de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25). Não há dúvida de que havia dois apóstolos chamados Tiago: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu. Considerais que Tiago, o menor, menos conhecido, chamado nas Escrituras de filho de Maria — mas não da Maria, mãe de Nosso Senhor —, era apóstolo? Se o era, seria filho de Alfeu e crente em Jesus, pois “nem seus irmãos acreditavam n’Ele” (Jo 7,5). Se não era apóstolo, mas um terceiro Tiago (o que desconheço), como poderia ser irmão do Senhor? E como, sendo um terceiro, seria chamado “menor” para distingui-lo do “maior”, já que “maior” e “menor” indicam relação entre dois, não três?

Observai ainda que o irmão do Senhor é apóstolo, pois Paulo diz: “Fui a Jerusalém para visitar Pedro e fiquei com ele quinze dias. Não vi outro apóstolo, senão Tiago, irmão do Senhor” (Gl 1,18-19). E na mesma epístola: “Quando reconheceram a graça que me foi dada, Tiago, Pedro e João, considerados colunas…” (Gl 2,9). Não podeis supor que esse Tiago seja filho de Zebedeu, pois os Atos dos Apóstolos relatam que ele foi morto por Herodes (At 12,2). Logo, a Maria descrita como mãe de Tiago, o menor, era esposa de Alfeu e irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada por João de “Maria de Cléofas” — seja por parentesco ou outro motivo.

Se pensais que são duas pessoas, por ler “Maria, mãe de Tiago, o menor” em um lugar e “Maria de Cléofas” em outro, aprendereis que a Escritura frequentemente dá nomes diferentes à mesma pessoa. Raguel, sogro de Moisés, é também Jetro. Gedeão torna-se Jerubaal sem motivo aparente. Ozias, rei de Judá, é também Azarias. O Monte Tabor é chamado Itabírio. Hermon é Sanior para os fenícios e Sanir para os amorreus. A mesma região tem três nomes em Ezequiel: Neguebe, Temã e Darom. Pedro é Simão e Cefas. Judas, o zelote, é Tadeu em outro Evangelho. Há inúmeros exemplos que o leitor pode encontrar na Escritura.

Capítulo 16

Eis a explicação que me esforcei por demonstrar: os filhos de Maria, irmã da mãe de Nosso Senhor, antes incrédulos e depois convertidos, foram chamados irmãos do Senhor. Talvez um dos irmãos tenha crido logo, enquanto outros só mais tarde. Uma Maria, dita “de Cléofas”, esposa de Alfeu, era mãe de Tiago e José; outra, mãe de Tiago, o menor. Se esta última fosse a mãe do Senhor, João lhe teria dado seu título sublime, como faz em outros lugares, e não a chamaria mãe de outros filhos, gerando confusão. Não pretendo aqui defender ou refutar se Maria de Cléofas e Maria, mãe de Tiago e José, eram pessoas distintas, pois está claro que esta última não era a mãe do Senhor.

Helvídio pergunta: “Como explicais que eram chamados irmãos do Senhor, se não o eram?” Responderei. Na Escritura, há quatro tipos de irmãos: por natureza, por raça, por parentesco e por afeto. Exemplos de irmãos por natureza são Esaú e Jacó, os doze patriarcas, André e Pedro, Tiago e João. Por raça, todos os judeus se chamavam irmãos, como em Deuteronômio: “Se teu irmão hebreu ou tua irmã hebreia te for vendido, servirá seis anos; no sétimo, deixá-lo-ás livre” (Dt 15,12). E: “Farás rei aquele que o Senhor teu Deus escolher, um de teus irmãos; não colocarás estrangeiro sobre ti, que não seja teu irmão” (Dt 17,15). Ainda: “Não verás o boi ou a ovelha de teu irmão extraviados sem os devolver; levá-los-ás ao teu irmão” (Dt 22,1-2). Paulo diz: “Queria eu mesmo ser separado de Cristo por meus irmãos, meus parentes segundo a carne, os israelitas” (Rm 9,3-4).

Por parentesco, são irmãos os de uma mesma família ou estirpe. Em Gênesis: “Abraão disse a Ló: ‘Não haja contenda entre mim e ti, nem entre meus pastores e os teus, pois somos irmãos’” (Gn 13,8). E: “Ló escolheu a planície do Jordão e partiu para o leste; separaram-se um do outro como irmãos” (Gn 13,11). Ló não era irmão de Abraão, mas filho de Aram, irmão de Abraão, pois Terá gerou Abraão, Nacor e Aram, e Aram gerou Ló. Lê-se ainda: “Abraão partiu de Harã com setenta e cinco anos, levando Sarai, sua esposa, e Ló, filho de seu irmão” (Gn 12,4-5).

Se ainda duvidais que um sobrinho possa ser chamado irmão, eis outro exemplo: “Quando Abraão soube que seu irmão fora capturado, armou seus homens treinados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito” (Gn 14,14). Após descrever o ataque, acrescenta: “Trouxe de volta todos os bens e também seu irmão Ló” (Gn 14,16). Isso basta como prova. Mas, temendo que levanteis objeções cavilosas e vos contorçais como serpente, fixar-vos-ei com mais evidências, para cessar vossos silvos, pois sei que preferis alegar complicados argumentos a aceitar a verdade da Escritura.

Jacó, filho de Isaac e Rebeca, fugindo da perfídia de seu irmão, foi à Mesopotâmia, ao poço de Labão, irmão de sua mãe. “Jacó beijou Raquel, ergueu a voz e chorou. Disse-lhe que era irmão de seu pai e filho de Rebeca” (Gn 29,11-12). Eis a regra: um sobrinho é chamado irmão. E mais: “Labão disse a Jacó: ‘Por seres meu irmão, trabalharás para mim sem paga? Dize-me teu salário’” (Gn 29,15). Após doze anos, Jacó voltou à sua terra sem o conhecimento de Labão, com esposas e filhos. Quando Labão os alcançou em Gileade e não achou os ídolos que Raquel escondera, Jacó perguntou: “Qual é minha transgressão? Qual meu pecado, para me perseguires assim? Revistaste tudo; que encontraste? Mostra-o aqui, perante nossos irmãos, para que julguem entre nós” (Gn 31,36-37). Dizei-me: quem eram esses irmãos de Jacó e Labão presentes ali? Esaú, irmão de Jacó, não estava; Labão, filho de Betuel, não tinha irmãos, apenas uma irmã, Rebeca.

Capítulo 17

Há inúmeros exemplos assim nos Livros Sagrados. Para ser breve, passo ao último tipo de irmãos: os por afeto, que se dividem em dois: os de relação espiritual e os de relação geral. Espiritual, pois todos os cristãos somos chamados irmãos, como no salmo: “Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam em união” (Sl 133,1). O Salvador diz: “Anunciarei teu nome a meus irmãos” (Sl 22,22). E: “Vai a meus irmãos e dize-lhes…” (Jo 20,17). Geral, porque somos filhos de um só Pai, havendo um laço de irmandade entre todos. O profeta diz: “Dizei aos que vos odeiam: ‘Sois nossos irmãos’” (Is 66,5). Paulo escreve aos Coríntios: “Se alguém chamado irmão for fornicador, avarento, idólatra, caluniador, beberrão ou ladrão, com tal pessoa não comais” (1Cor 5,11).

Pergunto: a qual classe pertencem os irmãos do Senhor nos Evangelhos? Por natureza, dizeis. Mas a Escritura não os chama filhos de Maria nem de José. Seriam irmãos por raça? Seria absurdo supor que alguns poucos judeus fossem chamados irmãos, quando todos os judeus da época poderiam reivindicar esse título. Seriam irmãos por intimidade e união de coração? Se assim fosse, por que seriam mais irmãos que os apóstolos, que receberam instrução privada e foram chamados por Ele de mãe e irmãos (Mt 12,49-50)? Se todos os homens fossem seus irmãos, seria inútil dizer: “Teus irmãos te procuram” (Mt 12,47), pois todos mereceriam o mesmo nome.

Resta adotar a explicação anterior: são chamados irmãos por parentesco, não por amor, raça ou natureza. Como Ló foi irmão de Abraão, Jacó de Labão, e as filhas de Zelofeade receberam herança entre seus irmãos (Nm 27,7), assim Abraão chamou Sarai de irmã: “Ela é minha irmã, filha de meu pai, mas não de minha mãe” (Gn 20,12), ou seja, filha de seu irmão. Do contrário, como justificar que Abraão, homem justo, dissesse que sua esposa era filha de seu pai? A Escritura, narrando os tempos primitivos, evita detalhes explícitos, deixando-os implícitos. Mais tarde, Deus proibiu isso por lei: “Quem tomar sua irmã, filha de seu pai ou de sua mãe, e vir sua nudez, comete abominação e será morto” (Lv 20,17).

Capítulo 18

Há coisas que, em vossa extrema ignorância, nunca lestes, negligenciando a vasta extensão da Escritura e usando vossa malícia para ultrajar a Virgem. Assemelhai-vos ao homem que, desconhecido, buscando fama por um crime, incendiou o templo de Diana em Éfeso. Como ninguém revelou o ato, ele próprio se declarou culpado. Os efésios, perplexos, perguntaram por que o fizera; ele respondeu que, sem fama por boas obras, todos lhe dariam crédito por uma má. A história grega registra o fato.

Mas vós fizestes pior: ateastes fogo ao templo do corpo do Senhor, profanastes o santuário do Espírito Santo, pretendendo que dele nascessem quatro irmãos e várias irmãs. Juntando-vos aos judeus, dizeis: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão entre nós?” (Mt 13,55-56). “Estão” implica muitas. Dizei-me: quem, antes de vós, conheceu essa blasfêmia? Quem julgou essa teoria digna de dois centavos? Conseguistes vosso intento: tornastes-vos notório por um crime. Eu, vosso oponente, vivendo na mesma cidade, não vos conheço como autor disso, nem sei se sois branco ou negro.

Omito os erros de dicção abundantes em vossos escritos e vossa introdução absurda. Não busco eloquência, que vos falta — contastes com a ajuda de vosso irmão Cratério para isso. Não procuro graça ou estilo, mas pureza de alma, pois entre cristãos é o maior solecismo e vício fundamentar algo em palavras ou atos impuros. Concluo meu argumento: admitirei que nada ganhei; vós, porém, ficareis num dilema.

Os irmãos de Nosso Senhor receberam esse nome como José foi chamado seu pai: “Teu pai e eu te procurávamos aflitos” (Lc 2,48), disse Sua mãe, não os judeus. O evangelista relata: “Seu pai e sua mãe admiravam-se do que se dizia a Seu respeito” (Lc 2,33). Já citamos passagens semelhantes em que José e Maria são chamados pais. Sabendo que fostes louco o bastante para crer que os manuscritos gregos estão corrompidos, talvez agora alegueis diversidade de interpretações.

Consulto o Evangelho de João: “Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: ‘Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José’” (Jo 1,45). Está em vosso manuscrito. Dizei-me: como Jesus é filho de José, se foi gerado pelo Espírito Santo? Era José seu pai verdadeiro? Nem vós, obtuso como sois, ousareis dizê-lo. Era seu suposto pai? Se sim, aplicai aos irmãos a mesma regra que aplicais a José como pai.

Parte IV: O estado virginal é superior ao estado matrimonial

Capítulo 19

Superadas as pedras e os escolhos, posso navegar a toda vela rumo ao destino. Vós, sentindo-vos ignorante, citastes Tertuliano como testemunha e as palavras de Vitorino, bispo de Petávio. De Tertuliano, direi apenas que não pertenceu à Igreja. Quanto a Vitorino, afirmo que o Evangelho prova que ele não falou dos irmãos do Senhor como filhos de Maria, mas como irmãos no sentido que expliquei: por parentesco, não por natureza.

Perdemos tempo com ninharias, deixando a fonte da verdade por opiniões insignificantes. Não deveríamos convocar todos os escritores antigos contra vós? Inácio, Policarpo, Ireneu, Justino Mártir e outros homens apostólicos e eloquentes combateram Ebion, Teódoto de Bizâncio e Valentino com os mesmos argumentos, escrevendo volumes cheios de saber. Se os tivésseis lido, seríeis sábio. Prefiro refutar cada ponto brevemente a alongar meu livro indevidamente.

Capítulo 20

Agora ataco a passagem em que, querendo exibir talento, comparais virgindade e casamento. Não pude evitar rir, lembrando o provérbio: “Viste uma dança cautelosa?” Perguntais: “São as virgens melhores que Abraão, Isaac e Jacó, que foram casados? As crianças não são moldadas diariamente por Deus no útero materno? Se assim é, devemos corar ao pensar que Maria teve um marido após o parto? Se julgais isso uma desgraça, não deveríeis crer que Deus nasceu de uma virgem por parto natural, pois, segundo vós, há mais desonra numa virgem dando à luz a Deus pelos órgãos genitais que numa virgem unida ao marido após o parto.”

Acrescentai, se quiserdes, as humilhações da natureza: o útero crescendo por nove meses, os enjoos, o parto, o sangue, os cueiros. Imaginai o menino envolto na placenta, a manjedoura dura, o choro, a circuncisão no oitavo dia, o tempo de purificação, tudo supostamente impuro. Não coramos, nem nos silenciais. Maior humilhação Ele sofreu por mim, a suprema na cruz, na qual cremos e pela qual triunfamos sobre os inimigos. Após detalhar tudo, não achareis nada mais vergonhoso que a cruz.

Capítulo 21

Não negamos o que está escrito, mas rejeitamos o que não está. Cremos que Deus nasceu de uma virgem, pois lemos isso. Não cremos que Maria teve união marital após o parto, pois não lemos isso. Não o dizemos para condenar o casamento — a virgindade é seu fruto —, mas porque, tratando de santos, não devemos julgar levianamente. Se tomássemos a possibilidade como critério, poderíamos supor que José teve várias esposas, como Abraão e Jacó, e que os irmãos do Senhor nasceram delas, uma invenção que alguns sustentam com audácia nascida da impiedade.

Dizeis que Maria não permaneceu virgem. Eu afirmo ainda mais: José, homem santo, também foi virgem, de modo que de um casamento virginal nasceu um filho virginal. Se ele não é acusado de fornicação, não teve outra esposa e foi guardião de Maria, tida por esposa mas não por ele como marido, conclui-se que aquele digno de ser chamado pai do Senhor permaneceu casto.

Capítulo 22

Ao comparar virgindade e casamento, peço aos leitores que não pensem que, ao louvar a virgindade, menosprezo o casamento ou discrimino os santos do Antigo Testamento, casados, em relação aos do Novo, que se mantiveram livres das mulheres. Creio que, conforme os tempos e circunstâncias, uma regra valeu para aqueles, outra para nós, sobre quem virá o fim do mundo.

Outrora vigorava a lei: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 1,28); e: “Maldita a estéril que não gerou semente em Israel” (cf. Ex 23,26). Casavam-se, uniam-se em uma só carne, deixando pai e mãe. Mas, de repente, ouviu-se como trovão: “O tempo se abrevia; doravante, os que têm esposas sejam como se não as tivessem” (1Cor 7,29). Aderindo ao Senhor, tornamo-nos um só espírito com Ele. Por quê? “O solteiro cuida das coisas do Senhor, para agradá-Lo; o casado cuida das coisas do mundo, para agradar à esposa. Há diferença entre a esposa e a virgem: a solteira cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; a casada cuida das coisas do mundo, para agradar ao marido” (1Cor 7,32-34).

Por que sofismais? Por que resistis? O vaso de eleição o disse: há diferença entre esposa e virgem. Vede a felicidade desse estado, em que até a distinção de sexo desaparece. A virgem não é mais chamada mulher: “A solteira cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito.” Ela é definida como santa em corpo e espírito, pois de nada vale uma carne virgem se a alma se casa. “A casada cuida das coisas do mundo, para agradar ao marido.” Achais que não há diferença entre quem ora e jejua e quem, ao ver o marido, arruma-se, anda com afetação e demonstra carinho?

A virgem busca parecer menos atraente, escondendo seus encantos naturais. A casada prepara o pincel diante do espelho, desafiando o Criador para superar sua beleza natural. Vêm os filhos falando, o barulho da casa, as crianças pedindo palavras e beijos, as despesas, o cuidado com os gastos. De um lado, cozinheiros gritam; de outro, fiandeiras fazem barulho. Anunciam que o marido e amigos chegaram. A esposa, como andorinha, voa pela casa: o sofá está arrumado? O chão varrido? As flores nos vasos? O jantar pronto? Dizei-me: onde, nisso tudo, há lugar para Deus? São essas casas tranquilas? Com tambores, órgãos, alaúdes e címbalos, há temor de Deus? O parasita é recebido com honra. Entram vítimas das paixões, alvo de olhares lascivos. A esposa ou se agrada e perece, ou se desagrada e irrita o marido. Daí vêm discórdias, sementes de divórcio.

Suponde uma casa onde isso é raro. Mesmo ali, os deveres do dono, a educação dos filhos, as necessidades do marido e a correção dos servos afastam a mente de Deus. “Abraão deixou de estar com Sara como se está com mulheres” (cf. Gn 18,11), e depois recebeu a ordem: “Ouve tudo o que Sara te disser” (Gn 21,12). Livre das ansiedades do parto e da função feminina, Sara escapou do esquecimento de Deus; sem desejo pelo marido, este lhe foi submisso, e a voz do Senhor ordenou: “Ouve tudo o que Sara te disser.” Então, começaram a ter tempo para orar. Enquanto o dever matrimonial era pago, a oração era negligenciada.

Capítulo 23

Não nego que há mulheres santas entre viúvas e casadas; mas elas o são ao deixar de ser esposas ou ao imitar, no dever do casamento, a castidade virginal. O Apóstolo, como se Cristo falasse por ele, testemunha: “A solteira cuida das coisas do Senhor, para agradá-Lo; a casada cuida das coisas do mundo, para agradar ao marido” (1Cor 7,32-34).

Ele nos deixa livre para raciocinar. Não impõe obrigações nem armadilhas, apenas persuade ao que é próprio, desejando que todos sejam como ele. Não deu um mandamento sobre a virgindade, pois essa graça excede o poder humano sem auxílio, e seria imodéstia forçar os homens a voar contra sua natureza, dizendo: “Quero que sejais como os anjos.” Essa pureza angélica dá à virgindade sua alta recompensa. O Apóstolo poderia parecer desprezar um estado não culposo.

Logo após, diz: “Dou meu julgamento como quem obteve misericórdia do Senhor para ser fiel. Penso que isso é bom, por causa da presente aflição: é bom que o homem seja assim” (1Cor 7,25-26). Que significa “presente aflição”? “Haverá aflição para as que tiverem filhos e amamentarem naqueles dias!” (Mt 24,19). A madeira cresce para ser cortada; o campo é semeado para ser ceifado. O mundo está cheio, a população é grande demais para a terra. Somos dizimados por guerras, doenças e naufrágios, mas disputamos muros de propriedade.

Os que seguem o Cordeiro, sem despir seus ornamentos, mantêm a virgindade. “Despir” tem um sentido que evito explicar, temendo os abusos de Helvídio. Concordo que algumas virgens são meretrizes; digo mais: há adultério entre elas, e surpreender-vos-á saber que alguns clérigos são taberneiros e monges impuros. Quem não vê que uma meretriz não permanece virgem, nem um adúltero monge, nem um taberneiro clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade corrompida é pecado?

Quanto a mim, tratando dos castos, digo que uma vendedora, ainda que sem prova, pode ser virgem no corpo, mas não mais casta no espírito.

Parte V: Conclusão

Capítulo 24

Tornei-me retórico, como um orador de tribuna. Fostes vós, Helvídio, que me levastes a isso. Com a luz clara do Evangelho, quereis igualar a glória da virgindade ao casamento. Sabendo que, sentindo a força da verdade, podereis difamar minha vida e caráter — como mulheres fracas murmuram nos cantos ao serem repreendidas —, adianto-me:

Asseguro que receberei vossas injúrias como alta distinção, pois os mesmos lábios que me atacam profanaram Maria. Eu, servo do Senhor, sou honrado pela mesma eloquence que ultrajou Sua mãe.