Tradição Apostólica de Santo Hipólito de Roma

(? – c. 235)

1. Vida

Hipólito, nascido provavelmente na segunda metade do século II, teria sido, conforme o testemunho de alguns Padres da Igreja, bispo, embora não seja possível precisar o local de sua sede. Sabe-se que ele afirmou ser discípulo de Irineu e foi o último escritor a utilizar, em Roma, a língua grega.

Escritor erudito, transmitia seus conhecimentos sem recorrer ou citar as fontes. Na época em que a Igreja tornou a penitência mais branda para os pecadores, Hipólito entrou em conflito com a autoridade máxima da Igreja, o papa, e acabou sendo eleito antipapa por um pequeno grupo de cristãos moralistas. Foi exilado pelo imperador na Sardenha, onde morreu em 235, juntamente com o papa Ponciano (também exilado), com quem se reconciliou algum tempo antes, retornando assim ao seio da Igreja.

Muitas obras são atribuídas a Hipólito, mas a *Tradição Apostólica* é uma das poucas que sobreviveram e, talvez, a mais importante, por ser a constituição eclesiástica mais antiga que possuímos.

Entre os destaques desta obra, destacam-se:

  • A existência de ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e não ordenados (viúvas, virgens, leitores, etc.);
  • As profissões incompatíveis com o cristão;
  • O catecumenato fixado em três anos;
    – O batismo estendido também às crianças;
  • A oração eucarística e os cuidados devidos ao pão e ao vinho, Corpo e Sangue do Senhor;
  • A eficácia da oração na vida do cristão (celebrada várias vezes ao dia), em especial o sinal da cruz.

2. Primeira Parte:

Ministérios Ordenados e Não Ordenados

2.1 - Introdução

Já tratamos dos carismas, dons que Deus concedeu aos homens desde o princípio, conforme Sua vontade, atraindo para Si a imagem que Dele se afastara. Agora, movidos pelo amor que devemos a todos os santos, abordamos o ponto central da tradição: o que diz respeito às igrejas. Todos, bem instruídos, devem conservar a tradição que perdura até hoje e, conhecendo-a através de nossas palavras, permanecer firmes, pois os recentes erros (heresias) foram motivados pela ignorância e pelos ignorantes. Que o Espírito Santo conceda a graça perfeita àqueles que crêem na verdade ortodoxa, para que os líderes da Igreja saibam ensinar e preservar tudo de forma adequada.

##### 2.2 – Escolha e Consagração dos Bispos
Deve ser ordenado bispo aquele que for eleito por todo o povo. Quando for chamado por seu nome e aceito por todos, reunir-se-ão, no domingo, o povo, o presbitério e os bispos. Após o consentimento de todos, os bispos imporão as mãos sobre ele, enquanto o presbitério permanece imóvel. Todos permanecerão em silêncio, orando no coração pela vinda do Espírito Santo. Um dos bispos, por consenso geral, imporá as mãos sobre o eleito e rezará:

> “Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai da misericórdia e Deus de todo consolo, que habitas nas alturas e olhas para o humilde; Tu, que conheces todas as coisas antes de nascerem; Tu, que deste as leis da Tua Igreja pela palavra da graça, elegendo a raça dos justos de Abraão, desde o princípio, constituindo-os chefes e sacerdotes; Tu, que não deixaste Teu santuário sem administração; Tu, que desde o princípio dos séculos Te agradas em ser glorificado por estes que elegeste, derrama neste momento a força que sai de Ti, o Espírito de liderança que deste ao Teu querido Filho, Jesus Cristo, e que Ele concedeu aos santos apóstolos, de forma que constituíram a Tua Igreja por toda a parte, o Teu Templo, para louvor e glória eterna do Teu nome. Pai, que conheces os corações, permite a este Teu servo, que escolheste para o episcopado, apascentar o Teu rebanho santo, desempenhando o primado do sacerdócio de forma irrepreensível perante Ti, servindo-Te noite e dia. Concede-lhe tornar propícia a Tua imagem, incessantemente, oferecendo os sacrifícios da Tua Santa Igreja e, com um espírito de superior sacerdócio, possuir o dom de perdoar os pecados conforme a Tua ordem, distribuir os cargos eclesiásticos segundo o Teu preceito, desatar quaisquer laços conforme o poder que deste aos apóstolos e ser do Teu agrado, pela mansidão e pureza de coração, para que Te ofereça um perfume agradável, por Teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual Te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.”

2.3 - Oração Eucarística

Assim que for ordenado bispo, todos lhe oferecerão o ósculo da paz, saudando-o por tornar-se digno. Os diáconos oferecerão o sacrifício, e ele, após impor as mãos sobre o sacrifício, dará graças, juntamente com todo o presbitério, dizendo:

“O Senhor esteja convosco.”

Todos responderão: “E com o teu espírito.”

[Dirá:] “Corações ao alto.”

[Responderão:] “Já os oferecemos ao Senhor.”

[Dirá:] “Demos graças ao Senhor.”

[Responderão:] “Pois é digno e justo.”

Em seguida, prosseguirá:

“Nós Te damos graças, ó Deus, por Teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos enviaste nos últimos tempos, [Ele que é nosso] Salvador e Redentor, porta-voz da Tua vontade, Teu Verbo inseparável, por meio de quem fizeste todas as coisas e, por ser do Teu agrado, enviaste do céu ao seio de uma Virgem; aí presente, cresceu e revelou-se Teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem. Cumprindo a Tua vontade, obtendo para Ti um povo santo, ergueu as mãos enquanto sofria para salvar do sofrimento todos aqueles que em Ti confiaram. Entregou-se voluntariamente à Paixão para destruir a morte, quebrar as cadeias do demônio, esmagar o poder do mal, iluminar os justos, estabelecer a Lei e trazer à luz a ressurreição. [Ele] tomou o pão e deu graças a Ti, dizendo: ‘Tomai e comei: isto é o meu Corpo que será destruído por vossa causa’. [Depois,] tomou igualmente o cálice e disse: ‘isto é o meu sangue, que será derramado por vossa causa. Quando fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória’. Por isso, lembramos de Sua morte e ressurreição e oferecemos-Te o pão e o cálice, dando-Te graças por nos considerardes dignos de estarmos na Tua presença e de Te servir. E pedimos: envia o Teu Espírito Santo ao sacrifício da Santa Igreja, reunindo todos os fiéis que receberem a eucaristia num só rebanho, na plenitude do Espírito Santo, para fortalecer nossa fé na verdade. Concede que Te louvemos e glorifiquemos, por Teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual Te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Tua Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.”

2.4 - Bênção do Azeite, Queijo e Azeitonas

Se alguém oferecer azeite, consagre-o como se consagrou o pão e o vinho, não com as mesmas palavras, mas com o mesmo Espírito. Dê graças, dizendo:

“Assim como por este óleo santificado ungiste reis, sacerdotes e profetas, concede também, ó Deus, a santidade àqueles que com ele são ungidos e aos que o recebem, proporcionando consolo aos que o experimentam e saúde aos que dele necessitam.”

Do mesmo modo, se alguém oferecer queijo e azeitonas, diga:

“Abençoa este leite coalhado, unindo-nos à Tua caridade. Concede, ainda, que este fruto da oliveira não se afaste da Tua doçura por ser um exemplo da abundância que tiraste da árvore para a vida dos que em Ti esperam.”

E, a cada bênção, diga:

“Glória a Ti, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.”

2.5 - Ordenação dos Presbíteros

Ao se ordenar um presbítero, o bispo (e os demais presbíteros) impõe-lhe as mãos sobre sua cabeça e reza:

“Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: baixa o olhar sobre este Teu servo e transmite a ele o Espírito da graça e do conselho do presbitério, para que ele possa ajudar e governar o Teu povo com o coração puro, da mesma forma como baixaste o olhar sobre o Teu povo escolhido e ordenaste a Moisés que selecionasse anciãos, nos quais derramaste o Espírito que tinhas dado ao Teu servo. E agora, Senhor, dissipando-nos o Espírito da Tua graça, conserva-o eternamente em nós e torna-nos dignos de Te servir com simplicidade de coração e de Te louvar por Teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual Te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.”

2.6 - Ordenação dos Diáconos

O diácono deve ser eleito conforme mencionado e ordenado com a imposição das mãos apenas do bispo, pois não está sendo ordenado para o sacerdócio, mas para servir ao bispo e executar suas ordens. Ele não participa do conselho clerical, mas cuida da administração, informando ao bispo tudo o que for necessário.

Na ordenação, o bispo reza:

“Ó Deus, que criaste todas as coisas e as ordenaste pelo Verbo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que enviaste para cumprir a Tua vontade e para nos revelar o Teu desejo, concede a este servo, que escolheste para servir a Tua Igreja, o Espírito Santo da graça, do cuidado e do trabalho, para apresentar em santidade, no Teu Santuário, o que Te for oferecido pelo herdeiro do sumo sacerdote, para a glória do Teu nome, e também para que, exercendo de forma irrepreensível e de coração puro o seu ministério, alcance um grau superior para Te louvar e glorificar por Teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual Te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.”

2.7 - Os Confessores

Não se deve impor as mãos sobre um confessor candidato ao diaconato ou presbiterato se este já tiver sido preso por causa do nome do Senhor. A dignidade de presbítero é igual à honra da sua confissão. Porém, ser-lhe-ão impostas as mãos se for ordenado bispo.

2.8 - As Viúvas

Uma viúva, ao ser instituída, não é ordenada, mas eleita pela simples inscrição do nome. Se o seu marido já morreu há muito tempo, seja instituída; caso contrário, não se confie nela. Se for idosa, seja experimentada por algum tempo, pois as paixões podem persistir. A viúva é instituída para a oração, que pertence a todos, e não para o sacrifício ou a liturgia.

2.9 - Os Leitores

O leitor é instituído no momento em que o bispo lhe entrega o Livro. Sobre ele também não são impostas as mãos.

2.10 - As Virgens

Não serão impostas as mãos sobre a virgem, pois basta sua decisão para consagrar-se.

2.11 - Os Subdiáconos

Também não serão impostas as mãos sobre o subdiácono. Ele será nomeado para seguir o diácono.

2.12 - O Dom da Cura

Se alguém disser que recebeu o dom da cura por revelação, não serão impostas as mãos sobre ele: os fatos demonstrarão se está dizendo a verdade.

3. Segunda Parte:

Catecúmenos e Liturgias Diversas

3.1 - Os Novatos

Aqueles que são trazidos pela primeira vez para escutar a Palavra devem ser direcionados aos catequistas, antes da chegada do povo, e interrogados sobre a razão pela qual resolveram se aproximar da fé. Aqueles que os trouxerem devem dar testemunho deles, informando se estão preparados para ouvir a Palavra.

3.2 - Profissões Proibidas

Deve-se interrogar sobre as profissões dos candidatos. Aqueles que exercem profissões incompatíveis com a fé cristã, como donos de prostíbulos, escultores de ídolos, atores, gladiadores, sacerdotes pagãos, soldados que matam, devem renunciar a essas atividades ou ser recusados.

3.3 - Os Catecúmenos

Os catecúmenos devem escutar a Palavra por três anos. Se algum deles for dedicado e atencioso, o tempo pode ser reduzido. Devem rezar em particular, separados dos fiéis, e não participar da ceia do Senhor.

3.4 - Os Batizandos

Os batizandos devem ser examinados quanto à sua vida durante o catecumenato. Devem ser exorcizados diariamente e jejuar na véspera do batismo.

3.5 - O Batismo

O batismo deve ser realizado com água corrente, se possível. Primeiro, batizam-se as crianças, depois os homens e, por último, as mulheres. O batismo é realizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

3.6 - A Confirmação

Após o batismo, o bispo impõe as mãos sobre os neófitos e ora para que sejam cheios do Espírito Santo.

3.7 - A Primeira Eucaristia

Os recém-batizados participam da eucaristia pela primeira vez, recebendo o pão e o vinho consagrados.

4. Terceira Parte: Outros Temas e Práticas

 4.1 - A Comunhão Dominical

No domingo, o bispo distribui a comunhão ao povo.

4.2 - O Jejum

As viúvas e as virgens devem jejuar e rezar frequentemente pela Igreja.

4.3 - O Ágape

O ágape (refeição comunitária) deve ser realizado com cuidado e reverência.

4.4 - O Lucernário

Ao anoitecer, o diácono traz a lucerna (lâmpada), e o bispo dá graças pela luz.

4.5 - A Ceia

A ceia deve ser realizada com dignidade, e os catecúmenos não devem participar da eucaristia.

4.6 - Frutos Oferecidos ao Bispo

Os primeiros frutos da colheita devem ser oferecidos ao bispo, que os abençoará.

4.7 - Bênção dos Frutos

Alguns frutos, como uvas, figos e azeitonas, podem ser abençoados.

4.8 - Jejum da Páscoa

Na Páscoa, ninguém deve comer antes do sacrifício.

4.9 - Os Diáconos Trabalham com o Bispo

 Os diáconos devem trabalhar em estreita colaboração com o bispo.

4.10 - A Oração

Os fiéis devem rezar ao acordar e antes de iniciar qualquer trabalho.

4.11 - Comunhão Diária

Os fiéis devem receber a eucaristia diariamente, se possível.

4.12 - Reunião do Clero

Os diáconos e presbíteros devem se reunir diariamente com o bispo.

4.13 - Os Cemitérios

Os cemitérios devem ser acessíveis a todos, e o bispo deve garantir que não haja cobranças abusivas.

4.14 - A Oração - II

Os fiéis devem rezar em momentos específicos do dia, imitando o exemplo de Cristo.

4.15 - O Sinal da Cruz

 O sinal da cruz deve ser feito com fé, como proteção contra o mal.

5. Final

Se estes ensinamentos forem recebidos com gratidão e fé ortodoxa, permitirão a edificação da Igreja e a vida eterna àqueles que crerem. Aconselho que [estes ensinamentos] sejam guardados por todos que tiverem o coração puro. Se todos ouvirem e seguirem a tradição dos apóstolos, nenhum herege poderá vos afastar do reto caminho.