Tertuliano, Presbítero
Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; ca. 160 — ca. 220) foi um prolífico autor das primeiras fases do cristianismo, nascido em Cartago, na província romana da África. Ele foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária (corpus) em latim e um notável apologista cristão, além de um polemista contra heresias. Tertuliano organizou e avançou a nova teologia da Igreja Primitiva. É talvez mais conhecido por ser o autor mais antigo, cuja obra sobreviveu, a utilizar o termo “Trindade” (em latim: Trinitas) e por nos fornecer a mais antiga exposição formal ainda existente sobre a teologia trinitária. Ele é um dos Padres Latinos. No entanto, algumas de suas ideias não foram aceitas pelos ortodoxos, e, no final de sua vida, ele se tornou montanista.
«O Sacrifício Espiritual»
Do Tratado sobre «A Oração» (Cap. 28-29: CCL 1, 273-274)
A oração é o sacrifício espiritual que aboliu os antigos sacrifícios. «Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?», diz o Senhor. «Estou farto de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos; o sangue de touros, cordeiros e cabritos não me agrada. Quem pede algo de vossas mãos?» O que Deus deseja, o Evangelho nos revela: «Está chegando a hora», diz Ele, «em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. Porque Deus é espírito» e deseja um culto espiritual.
Nós somos, portanto, verdadeiros adoradores e verdadeiros sacerdotes quando oramos em espírito e oferecemos a Deus nossa oração como a vítima que Lhe é própria e aceita aos Seus olhos.
Esta vítima, oferecida do fundo de nosso coração, nascida da fé, nutrida pela verdade, íntegra e sem defeito, pura e imaculada, coroada pelo amor, deve ser apresentada ao altar de Deus entre salmos e hinos, acompanhada pelo cortejo de nossas boas obras. E ela nos alcançará de Deus todos os bens.
Poderia Deus negar algo à oração feita em espírito e em verdade, quando é Ele mesmo quem a exige? Quantos testemunhos de sua eficácia já lemos, ouvimos e cremos!
No Antigo Testamento, a oração já libertava do fogo, das feras e da fome, embora ainda não tivesse recebido de Cristo toda a sua eficácia. Quanto mais eficaz será, então, a oração cristã! Ela não coloca um anjo para apagar o fogo com água, nem fecha as bocas dos leões, nem leva comida aos famintos, nem afasta, com o dom de Sua graça, as paixões dos sentidos. Mas ela ensina a paciência e aumenta a fé daqueles que sofrem, para que compreendam o que Deus prepara para os que padecem por Seu nome.
No passado, a oração afastava pragas, dispersava exércitos inimigos e fazia cessar a chuva. Agora, a verdadeira oração afasta a ira de Deus, intercede pelos inimigos e suplica pelos perseguidores. E o que há de surpreendente nisso, se ela pode fazer descer do céu a água do batismo, assim como já impetrou as línguas de fogo? Apenas a oração vence a Deus; mas Cristo a quis incapaz de fazer o mal e todopoderosa para o bem.
A oração tirou as almas dos mortos do próprio seio da morte, fortaleceu os fracos, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, abriu as masmorras, soltou as cadeias dos inocentes. A oração perdoa os pecados, afasta as tentações, extingue as perseguições, consola os desanimados, revigora os corajosos, guia os peregrinos, acalma as tempestades, confunde os ladrões, alimenta os pobres, orienta os ricos, levanta os caídos, sustenta os que estão prestes a cair e apoia os que estão de pé.
Os anjos também oram, todas as criaturas oram, os rebanhos e as feras se ajoelham ao sair de seus estábulos e cavernas e olham para o céu: não fazem vibrar o ar em vão com suas vozes. Até as aves, ao levantar voo e se elevarem ao céu, estendem suas asas em forma de cruz, como se fossem mãos, e fazem algo que também parece oração. O que mais dizer em honra da oração? Até o próprio Senhor orou, Aquele a quem pertencem a honra e o poder pelos séculos dos séculos.
Fonte: Tertuliano. Tratado sobre a Oração. Cap. 28-29.

