«O Pastor de Hermas» é um livro que foi muito apreciado na Igreja primitiva, a ponto de alguns Padres o considerarem canônico, ou seja, pertencente ao conjunto da Sagrada Escritura. Contudo, graças ao Fragmento Muratoriano (um pergaminho do ano 180 que lista os livros inspirados, descoberto e publicado no século XV), sabemos que foi composto por um certo Hermas, irmão do Papa Pio I, na cidade de Roma; portanto, entre os anos 141 e 155. Outros catálogos eclesiásticos posteriores confirmam essa informação. É o escrito mais longo da era pós-apostólica.

O livro reflete o estado da cristandade romana em meados do século II. Após um longo período de tranquilidade sem perseguições, parece que o bom espírito dos primeiros tempos não era mais tão universal. Ao lado de cristãos fervorosos, havia muitos mornos; junto aos santos, não faltavam pecadores, e isso em todos os níveis da Igreja, desde os simples fiéis até os ministros sagrados. Não é de surpreender, portanto, que o livro gire em torno da necessidade da penitência.

Trata-se de um escrito do gênero apocalíptico: o autor apresenta suas ideias como se lhe tivessem sido reveladas (apocalipse = revelação, em grego) por duas figuras misteriosas: uma anciã e um pastor. É precisamente deste último personagem que o livro toma seu nome.

Na primeira parte, o autor ilustra a doutrina da penitência por meio de uma série de Visões ou revelações. Aparece-lhe uma anciã matrona que, pouco a pouco, se despoja da velhice para se mostrar, ao final, como uma noiva adornada, símbolo dos eleitos de Deus. Essa matrona, como ela mesma explica, é a Igreja: parece anciã porque é a criatura mais antiga da criação e porque os pecados dos cristãos a enfeiam; mas ela se renova graças à penitência, até aparecer sem nenhuma imperfeição.

Na segunda parte, os Mandamentos, o anjo da penitência ensina a Hermas um resumo da doutrina moral. Na terceira, chamada Comparações ou Semelhanças, resolvem-se algumas questões que inquietavam os cristãos daquela época.

Nas linhas seguintes, reproduzem-se dois textos desta obra. No primeiro, correspondente à terceira visão, a anciã explica a Hermas o significado de uma torre construída com pedras, algumas das quais são rejeitadas. É uma bela imagem para indicar a construção da Igreja, na qual os cristãos — como dizia São Pedro — são pedras vivas edificadas sobre o fundamento que é Cristo. E, para ser uma pedra viva, a penitência pelos pecados tem importância fundamental.

* * * * *

O chamado Pastor, de Hermas, é um escrito complexo e estranho, composto no gênero apocalíptico e visionário, provavelmente na primeira metade do século II, embora possa conter elementos de diversas épocas. Consta de uma série de visões, comparações ou alegorias, algumas de sentido bastante confuso, que se referem a diversos aspectos da vida cristã.

Segundo se depreende do escrito, Hermas, seu autor, era um cristão simples e rude, mas cheio de preocupações religiosas e com uma particular consciência de suas próprias faltas morais de diversa índole. Pesa sobre ele especialmente o remorso por não ter sabido manter adequadamente as relações familiares com sua esposa e filhos, e por não ter sabido fazer bom uso de seus bens materiais, que havia perdido. Correspondendo a essa consciência de culpa, destaca-se no escrito o tema da penitência e do perdão que, ao contrário do que supunham concepções rigoristas, podia ser obtido ao menos uma vez após o batismo, se houvesse sincero arrependimento. Hermas, simples leigo, tem consciência de que isso se opunha ao ensino de certos doutores da Igreja que não admitiam possibilidade de perdão para quem pecasse gravemente após o batismo, e apresenta suas ideias como um anúncio especial de um mensageiro de Deus que lhe aparece na forma de um pastor, o que deu nome a este escrito.

Além do tema da penitência, é proeminente no Pastor, de Hermas, o tema da Igreja, que aparece sob a alegoria de uma torre em construção, da qual podem vir a fazer parte diversas classes de pedras, representando diferentes tipos de fiéis. Algumas pedras são temporariamente rejeitadas para a construção, outras o são definitivamente, simbolizando os fiéis que poderão ou não, a seu tempo, fazer penitência.

Outros temas aparecem ao longo do escrito: de particular interesse podem ser os que se referem ao perigo das riquezas, às relações entre ricos e pobres, ou à necessidade de saber distinguir os sinais da influência do espírito bom ou mau em nós ou nos outros. Neste último aspecto, Hermas encabeça a abundante literatura cristã sobre o “discernimento de espíritos”.

O Pastor, de Hermas, mostra certa audácia imaginativa, mas tem, em geral, pouca profundidade teológica e mantém-se mais numa atitude meramente moralista. Ainda assim, é interessante como reflexo dos problemas religiosos e morais que um cristão comum podia enfrentar naquela época.

JOSEP VIVES

1. Pedras para Construir a Igreja

(Visão III, nn. 2-7)

Dito isso, [a anciã] fez menção de se retirar; mas eu me prostrei a seus pés e lhe supliquei pelo Senhor que me mostrasse a visão que me havia prometido. E ela me tomou novamente pela mão, me levantou e me fez sentar no banco à sua esquerda. Ela também se sentou, à direita, e, erguendo uma vara brilhante, me disse:

– Vês algo grande?

– Senhora – respondi -, não vejo nada.

– Como! – retrucou-me -; não vês diante de ti uma torre que está sendo construída sobre as águas com pedras brilhantes e bem talhadas?

De fato, em um quadrilátero, estava sendo construída a torre pelas mãos daqueles seis jovens que haviam vindo com ela; e, ao mesmo tempo, outros homens, aos milhares, ocupavam-se em trazer pedras — umas do fundo do mar, outras da terra — e as entregavam aos seis jovens. Estes as tomavam e edificavam.

As pedras retiradas do fundo do mar eram todas colocadas diretamente na construção, pois já estavam lavradas e se ajustavam perfeitamente às outras pedras nas suas juntas; tão exatamente se encaixavam umas às outras que não se via junta alguma, e a torre parecia construída como se fosse de um único bloco.

Das pedras trazidas da terra, algumas eram rejeitadas, outras eram usadas na construção, e outras ainda eram feitas em pedaços e lançadas para longe da torre. Havia, além disso, uma grande quantidade de pedras espalhadas ao redor da torre que não eram usadas na construção, pois algumas estavam corroídas, outras com rachaduras, outras lascadas, e outras eram brancas e redondas e não se ajustavam à construção. Via também outras pedras lançadas para longe da torre, que caíam no caminho, mas não permaneciam nele, rolando do caminho para um lugar intransitável; outras caíam no fogo e ali se queimavam; outras chegavam perto das águas, mas não tinham força para rolar até elas, embora desejassem fazê-lo.

Depois de me mostrar todas essas coisas, ela quis se retirar. Eu lhe disse:

– Senhora, de que me serve ter visto tudo isso se não sei o que cada coisa significa?

Ela me respondeu: – Astuto és, homem, querendo conhecer o que se refere à torre.

– Sim, senhora – respondi -; quero conhecê-lo para anunciá-lo aos irmãos, para que assim se alegrem mais. E, uma vez que tenham conhecido essas coisas, reconheçam o Senhor em muita glória.

E ela me disse:

– Muitos as ouvirão, sim; mas, depois de ouvi-las, uns se alegrarão e outros chorarão. Contudo, mesmo estes, se ouvirem e se arrependerem, também se alegrarão. Escuta, pois, as comparações acerca da torre, pois vou revelar-te tudo. E não me importunes mais pedindo revelação, pois estas revelações têm um limite, já que estão cumpridas. Ainda assim, tu não cessarás de pedir revelações, pois és insistente.

Ora, a torre que vês sendo construída sou eu mesma, a Igreja, que se te apareceu tanto agora como antes. Portanto, pergunta o que quiseres acerca da torre, que eu te revelarei, para que te alegres junto com os santos (…).

Então lhe perguntei:

– Por que a torre está edificada sobre as águas, senhora?

– Já te disse antes – respondeu-me – que és muito astuto e que perguntas com cuidado; perguntando, pois, encontrarás a verdade. Escuta, agora, por que a torre está edificada sobre as águas. É porque vossa vida foi salva pela água e pela água será salva; mas o fundamento sobre o qual a torre se assenta é a palavra do Nome onipotente e glorioso, e ela se sustenta pela virtude invisível do Senhor.

Tomando a palavra, eu lhe disse: – Senhora, isso é algo grande e maravilhoso. E os seis jovens que estão construindo, quem são, senhora?

– Estes são os santos anjos de Deus que foram criados primeiro, e a quem o Senhor entregou sua criação para aumentá-la, edificá-la e dominar sobre toda a criação. Por obra destes, pois, a construção da torre será concluída.

– E os outros que trazem as pedras, quem são?

– Também estes são anjos santos de Deus; mas aqueles seis são superiores a eles em excelência. Por obra de uns e outros, então, a construção da torre será concluída, e todos se alegrarão ao redor dela e glorificarão a Deus porque sua construção foi terminada.

Fiz-lhe outra pergunta: – Senhora, gostaria de saber o destino das pedras e o que significa cada uma delas.

Ela me respondeu: – Não é que sejas mais digno que outros de receber essa revelação, pois há outros antes de ti e melhores que tu a quem essas visões deveriam ser reveladas. Mas, para que o nome de Deus seja glorificado, elas te foram reveladas, e continuarão a sê-lo, por causa dos vacilantes, daqueles que hesitam em seus discursos consigo mesmos sobre se essas coisas são ou não são. Dize-lhes que todas essas coisas são verdadeiras, que nada nelas está fora da verdade, mas tudo é firme, seguro e bem fundamentado.

Escuta agora sobre as pedras que entram na construção. As pedras quadradas e brancas, que se ajustavam perfeitamente em suas juntas, representam os apóstolos, bispos, mestres e diáconos que caminham segundo a santidade de Deus, os que desempenharam seus ministérios de bispos, mestres e diáconos de modo puro e santo a serviço dos eleitos de Deus. Dentre eles, alguns já morreram, outros ainda vivem. Estes são os que sempre estiveram em harmonia uns com os outros, mantiveram a paz entre si e se escutaram mutuamente. Por isso, na construção da torre, suas juntas se encaixavam perfeitamente.

– E as pedras retiradas do fundo do mar e colocadas na construção, que se encaixavam em suas juntas com as outras pedras já edificadas, quem são?

– Estes são os que sofreram pelo nome do Senhor.

– Quero saber, senhora, quem são as outras pedras, trazidas da terra.

Ela me respondeu:

– Os que entravam na construção sem necessidade de serem lavrados são os que o Senhor aprovou, porque caminharam na retidão do Senhor e cumpriram seus mandamentos.

– E as que eram trazidas e colocadas na construção, quem são?

– Estes são os neófitos, novos na fé, mas crentes; são exortados pelos anjos a praticar o bem, pois se encontrou neles alguma maldade.

– E os que rejeitavam e jogavam fora, quem são?

– Estes são os que pecaram, mas estão dispostos a fazer penitência; por essa razão, não foram lançados para longe da torre, pois, quando fizerem penitência, serão úteis para a construção. Os que têm intenção de fazer penitência, se o fizerem de verdade, serão fortalecidos na fé; com a condição, porém, de que façam penitência agora, enquanto a torre está sendo construída. Mas se a construção chegar ao fim, já não terão lugar para a penitência. Só lhes será concedido estar junto à torre.

Queres conhecer as pedras que eram feitas em pedaços e lançadas para longe da torre? Estes são os filhos da iniquidade; tornaram-se crentes hipocritamente, e nenhuma maldade se afastou deles. Por isso, não têm salvação, pois, por suas maldades, não são úteis para a construção. Por isso foram feitos em pedaços e lançados para longe. A ira do Senhor pesa sobre eles, pois o exasperaram.

Quanto às outras, que viste espalhadas em grande número pelo chão e que não entravam na construção, as pedras corroídas representam os que conheceram a verdade, mas não perseveraram nela nem se uniram aos santos. Por isso são inúteis.

– E a quem representam as pedras com rachaduras?

– Estes são os que guardam ressentimentos uns contra os outros em seus corações e não mantêm a paz mútua. Quando estão face a face, parecem ter paz; mas, assim que se separam, suas maldades permanecem intactas em seus corações. Essas são, pois, as rachaduras que as pedras têm.

As pedras lascadas representam os que creram e mantêm a maior parte de seus atos na justiça, mas também têm porções de iniquidade. Por isso estão lascadas e não inteiras.

– E as pedras brancas e redondas, que não se ajustavam à construção, quem são, senhora?

Ela me respondeu:

– Até quando serás néscio e lento, que tudo perguntas e nada entendes por ti mesmo? Estes são os que têm, sim, fé; mas, ao mesmo tempo, possuem riquezas deste século. Quando vem uma tribulação, por amor às suas riquezas e negócios, não hesitam em renegar seu Senhor.

Eu lhe respondi:

– Senhora, quando serão, pois, úteis para a construção?

– Quando – disse-me – a riqueza que agora os arrasta for cortada deles, então serão úteis para Deus. Pois, assim como a pedra redonda, se não for lavrada e algo dela for cortado, não pode tornar-se quadrada; também os que gozam de riquezas neste século, se sua riqueza não for cortada, não podem tornar-se úteis a Deus. Por ti mesmo, antes de tudo, podes perceber: quando eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e proveitoso para a vida. Tornai-vos úteis para Deus, pois tu mesmo és empregado como uma dessas pedras.

Quanto às outras pedras que viste serem lançadas para longe e caírem no caminho, rolando do caminho para lugares intransitáveis, estas representam os que creram; mas, depois, arrastados por suas dúvidas, abandonam seu caminho, que é o verdadeiro. Imaginando, pois, que são capazes de encontrar um caminho melhor, extraviam-se e sofrem andando por lugares desertos sem trilhos.

As que caíam no fogo e ali se queimavam representam os que apostataram completamente do Deus vivo e ainda não lhes subiu ao coração o pensamento de fazer penitência, impedidos pelos desejos de sua dissolução e pelas obras perversas que praticaram.

Queres saber quem são as outras pedras que chegavam perto das águas e não podiam rolar até elas? Estes são os que, depois de ouvir a palavra de Deus, desejariam ser batizados em nome do Senhor; mas, depois, ao perceberem a castidade que a verdade exige, mudam de ideia e voltam a seguir seus desejos perversos.

Assim terminou a explicação da torre. Ainda insistindo com ela, perguntei se todas aquelas pedras rejeitadas, que não se encaixavam na construção da torre, teriam oportunidade ou possibilidade de penitência e ainda teriam lugar nesta torre.

– Possibilidade de penitência – respondeu-me – sim, elas têm; mas já não podem encaixar-se nesta torre. Contudo, ajustar-se-ão a outro lugar muito menos elevado, e isso depois de passarem pelos tormentos da penitência e cumprirem os dias de expiação de seus pecados. A razão de serem transferidas é porque, afinal, participaram da palavra justa. E mesmo para serem transferidas de seus tormentos, é preciso que antes suba a seus corações, pela penitência, as obras más que praticaram; se não subir, não se salvarão, em castigo por sua dureza de coração.

2. Os Dois Anjos

(Mandamento VI, n. 2)

– Escuta agora – disse-me – acerca da fé. Dois anjos há em cada homem: um da justiça e outro da maldade.

– Como, pois, senhor – perguntei-lhe -, conhecerei as operações de um e de outro, já que ambos habitam comigo?

– Escuta – disse-me – e entende. O anjo da justiça é delicado, pudoroso, manso e tranquilo. Assim, pois, quando este anjo subir a teu coração, logo começará a falar contigo sobre a justiça, a castidade, a santidade, a mortificação e sobre toda obra justa e toda virtude gloriosa. Quando todas essas coisas subirem a teu coração, entende que o anjo da justiça está contigo. Eis aí, pois, as obras do anjo da justiça. Crê, portanto, neste e em suas obras.

Vê também as obras do anjo da maldade. Antes de tudo, esse anjo é impaciente, amargo e insensato, e suas obras más derrubam os servos de Deus. Assim, pois, quando este subir a teu coração, conhece-o por suas obras.

– Senhor – disse-lhe -, não sei como devo reconhecê-lo.

– Escuta – disse-me -. Quando te sobrevier um acesso de ira ou um sentimento de amargura, entende que ele está contigo; e o mesmo se diga de um desejo de te entregares a muitas ações, da preciosidade e abundância de comidas e bebidas, e muitas embriaguezes, e deleites variados e inconvenientes, do desejo, e também de mulheres, avareza, muito fausto de soberba e altivez e, enfim, de tudo quanto a essas coisas se aproxima e assemelha. Sempre, pois, que qualquer dessas coisas subir a teu coração, entende que o anjo da maldade está contigo. Tu, pois, já que conheces suas obras, afasta-te dele e não creias nele em nada, pois suas obras são más e inconvenientes para os servos de Deus.

Aí tens as operações de um e outro anjo; entende-as e crê apenas no anjo da justiça. Afasta-te, porém, do anjo da maldade, pois sua doutrina é totalmente perversa. Com efeito, imaginemos um homem tão fiel quanto queiras. Se o desejo deste anjo subir a seu coração, por força esse homem (ou mulher) cometerá algum pecado. E ao contrário, por mais malvado que seja um homem ou uma mulher, se a seu coração subirem as obras do anjo da justiça, por necessidade esse homem ou mulher praticará algum bem. Vês que é bom seguir o anjo da justiça e renunciar ao anjo da iniquidade.

3. A Mensagem de Penitência

Tendo eu jejuado e orado insistentemente ao Senhor, foi-me revelado o sentido da escritura. O que estava escrito era o seguinte: Teus filhos, Hermas, rebelaram-se contra Deus, blasfemaram contra o Senhor e traíram seus pais com grande perversidade, e tiveram que ouvir-se chamar traidores de seus pais. E mesmo após essa traição, não se corrigiram, mas adicionaram aos seus pecados suas insolências e suas perverse contaminações, com o que suas iniquidades chegaram ao auge. Contudo, faze saber a todos os teus filhos e à tua esposa, que passará a ser tua irmã, estas palavras. Pois tua esposa não modera sua língua, com a qual pratica o mal. Mas, se ouvir estas palavras, se conterá e obterá misericórdia.

Depois que lhes tiveres dado a conhecer estas palavras que o Senhor me ordenou que te revelasse, todos os pecados que eles tiverem cometido anteriormente lhes serão perdoados, assim como a todos os santos que pecaram até este dia, desde que se arrependam de todo o coração e afastem de seus corações toda hesitação. Porque o Senhor fez este juramento por sua glória a respeito de seus eleitos: se, depois de fixado este dia, ainda cometerem pecado, não terão salvação, pois a penitência para os justos tem um limite. Os dias de penitência estão cumpridos para todos os santos, enquanto para os gentios há penitência até o último dia. Assim, pois, dirás aos chefes da Igreja que endireitem seus caminhos segundo a justiça, para que possam receber o fruto pleno da promessa com grande glória. Portanto, vós que praticais a justiça, mantende-vos firmes e não vacileis, para que vos seja concedida a entrada aos anjos santos. Bem-aventurados vós, os que suportais a grande tribulação que está por vir, assim como os que não hão de negar sua própria vida. Porque o Senhor jurou por seu próprio Filho que os que negarem o Senhor serão privados de sua própria vida, isto é, os que o negarem a partir de agora nos dias vindouros. Mas os que o tiverem negado antes obterão perdão por sua grande misericórdia.

Quanto a ti, Hermas, não guardes mais rancor contra teus filhos, nem abandones tua irmã, para que tenham oportunidade de se purificar de seus pecados passados. Porque, se não lhes guardares rancor, serão educados com justa educação. O rancor produz a morte. Tu, Hermas, sofreste grandes tribulações em tua pessoa por causa das transgressões dos de tua casa, pois não cuidaste deles, porque tinhas outras preocupações e te enredavas em negócios malvados.

Mas o que te salva é não teres apostatado do Deus vivo, assim como tua simplicidade e tua muita continência. Isso é o que te salvou – desde que perseveres – e o que salvará a quantos façam o mesmo e vivam em inocência e simplicidade. Estes triunfarão sobre toda maldade e perseverarão para a vida eterna. Bem-aventurados todos os que praticam a justiça, pois não se perderão para sempre…

– Não te parece – disse-me o pastor – que o próprio arrepender-se é uma espécie de sabedoria? Sim – disse -, o arrepender-se é uma grande sabedoria, porque o pecador percebe que fez o mal diante do Senhor, e o sentimento da obra que realizou penetra em seu coração, com o que se arrepende e já não volta a praticar o mal, mas se põe a praticar toda sorte de bem, e humilha e atormenta sua alma por ter pecado. Vês, pois, como o arrependimento é uma grande sabedoria…

– Senhor – disse-lhe -, ouvi de alguns mestres que não há outra penitência além daquela pela qual descemos à água (do batismo) e alcançamos o perdão de nossos pecados anteriores.

Ele me disse: – Ouviste bem, pois assim é: porque o que recebeu o perdão de seus pecados já não deveria pecar, mas viver puro. Mas, já que queres saber de tudo com exatidão, também te explicarei outro aspecto, sem que com isso queira dar pretexto de pecar aos que no futuro hão de crer ou aos que há pouco creram no Senhor. Porque os que há pouco creram, ou hão de crer no futuro, não têm lugar para penitência de seus pecados, exceto a remissão de seus pecados anteriores (no batismo). Mas para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência: porque o Senhor conhece os corações, sabe tudo de antemão, e conheceu a fraqueza dos homens e a muita astúcia do diabo com a qual havia de fazer mal aos servos de Deus e se ensañar contra eles. Ora, sendo grandes as entranhas de misericórdia do Senhor, Ele se apiedou de sua criatura e dispôs esta penitência, fazendo-me seu encarregado. No entanto, devo te dizer isto: se, depois daquele chamamento grande e santo, alguém, tentado pelo diabo, cometer pecado, só tem lugar para uma penitência. Mas, se peca continuamente e se arrepende repetidas vezes, de nada lhe aproveita a tal homem, pois dificilmente alcançará a vida.

Eu lhe repliquei: – Ouvir esta explicação tão exata sobre essas coisas me devolveu a vida, pois agora sei que, se não voltar a cometer mais pecados, me salvarei.

– Te salvarás – disse-me – tu e todos os que fizeram essas coisas.

4. Riqueza e Pobreza

Assim como a pedra redonda não pode tornar-se sillar se não for cortada e algo dela for retirado, também os ricos neste século não podem tornar-se úteis ao Senhor se sua riqueza não for cortada. Por ti mesmo podes sabê-lo em primeiro lugar: quando eras rico, eras inútil, mas agora és útil e proveitoso para a vida…

O rico tem realmente muito dinheiro, mas, em relação ao Senhor, é pobre, arrastado como está por sua riqueza. Muito raramente faz sua ação de graças e sua oração diante do Senhor, e, mesmo quando o faz, é com brevidade, sem intensidade e sem força para subir até o alto. Mas quando o rico se une ao pobre e lhe fornece o necessário, crendo que poderá encontrar em Deus a recompensa pelo que tiver feito pelo pobre — já que o pobre é rico na oração e na ação de graças, e suas petições têm grande força diante de Deus —, então o rico atende ao pobre em todas as coisas sem reservas. Por sua vez, o pobre, atendido pelo rico, ora por ele e dá graças a Deus por aquele de quem recebe benefícios. E então o rico toma ainda maior interesse pelo pobre, para não lhe faltar nada em sua vida, pois sabe que a oração do pobre é rica e aceitável diante de Deus. Dessa forma, ambos realizam sua obra em comum: o pobre coopera com sua oração, na qual é rico, tendo-a recebido do Senhor e devolvendo-a ao mesmo Senhor que lha havia dado. A seu turno, o rico coloca à disposição do pobre, sem reservas, a riqueza que recebeu do Senhor. Esta é uma grande obra agradável a Deus, com a qual ele mostra que entende o sentido de suas riquezas, colocando à disposição do pobre os dons do Senhor e cumprindo retamente o serviço que o Senhor lhe confiara… Dessa forma, os pobres, orando ao Senhor pelos ricos, dão pleno sentido à riqueza destes, e, por sua vez, os ricos, socorrendo os pobres, alcançam a plenitude do que falta a suas almas. Com isso, ambos se tornam colaboradores na obra da justiça. Portanto, o que assim agir não será abandonado por Deus, mas ficará escrito no livro dos vivos. Bem-aventurados os que têm e entendem que suas riquezas vêm do Senhor: porque o que entende isso poderá cumprir o serviço devido …

5. Discernimento de Espíritos

Dois anjos acompanham o homem, um da justiça e outro da maldade… O anjo da justiça é delicado, recatado, manso e tranquilo. Assim, pois, quando este anjo penetrar em teu coração, te falará imediatamente de justiça, de pureza, de santidade, de contentar-te com o que tens, de toda obra justa e de toda virtude reconhecida. Quando sentires que teu coração está penetrado de todas essas coisas, entende que o anjo da justiça está contigo, porque essas são as obras do anjo da justiça. A ele, pois, deves crer, e às suas obras.

Considera, por outro lado, as obras do anjo da maldade: em primeiro lugar, ele é impaciente, amargurado e insensato; suas obras são más e capazes de abater os servos de Deus. Quando este anjo penetrar em teu coração, deves saber reconhecê-lo por suas obras… Quando te sobrevier alguma impaciência ou amargura, entende que ele está dentro de ti; igualmente, quando tiveres ânsia de fazer muitas coisas, ou de muitos e requintados manjares, de muitas e variadas bebidas, de embriaguezes suaves e inconvenientes; igualmente, quando tens desejo de mulheres, ou de posses, ou de grande soberba e altivez, e de outras coisas semelhantes: quando essas coisas penetrarem em teu coração, sabe que o anjo da maldade está dentro de ti. Assim, pois, tu, conhecendo suas obras, afasta-te dele e não creias nele em nada, pois suas obras são malvadas e não trazem proveito algum aos servos de Deus…

Como se conhecerá um homem, se é verdadeiro ou falso profeta? …Ao homem que tem o Espírito divino deves examiná-lo por sua vida. Em primeiro lugar, o que tem o Espírito divino de cima é manso, tranquilo e humilde; afasta-se de toda maldade, assim como dos vãos desejos deste século, e faz-se a si mesmo o mais pobre de todos os homens; não começa a dar respostas a ninguém só porque lhe perguntam, nem fala em segredo, pois o Espírito Santo não fala quando o homem quer, mas fala quando Deus quer que fale. Assim, pois, quando um homem que tem o Espírito divino chega a uma reunião de homens justos que têm fé no Espírito divino, e naquela reunião se faz oração a Deus, então o anjo do espírito profético que está nele enche aquele homem, e, cheio assim com o Espírito Santo, ele fala à multidão como o Senhor quer…

Escuta agora o que se refere ao espírito terreno e vazio, que não tem virtude alguma, mas é néscio. Em primeiro lugar, o homem que aparentemente tem o Espírito se exalta a si mesmo e quer ocupar a cadeira principal; e imediatamente se mostra leviano, desavergonhado e falador; vive entre muitos prazeres e com muitos outros enganos; faz-se pagar por suas profecias, e, se não lhe pagam, não profetiza. Será que o Espírito divino pode cobrar para profetizar? Não pode fazer isso um profeta de Deus, mas o espírito de tais profetas é da terra. Além disso, o falso profeta não se aproxima de forma alguma da reunião dos justos, mas foge deles; em vez disso, junta-se aos vacilantes e vazios, lançando-lhes suas profecias pelos cantos, e os engana falando-lhes conforme seus desejos, embora sejam vazios, pois responde a homens vazios. Quando uma vasilha vazia choca com outras igualmente vazias, não se quebra, mas todas ressoam com o mesmo som. Quando o falso profeta chega a uma reunião cheia de homens justos que possuem o espírito da divindade e fazem oração, ele fica vazio, seu espírito terreno foge dele assustado, e o homem fica mudo e totalmente destroçado, sem poder dizer palavra.

Os que nunca investigaram a verdade nem indagaram acerca da divindade, mas se contentaram em crer, agitados com seus negócios, suas riquezas, suas amizades pagãs e muitas outras ocupações deste século, todos os que estão mergulhados nessas coisas não entendem as parábolas acerca da divindade. Pois, com todos esses negócios, estão obscurecidos, corrompidos e secos. Assim como as vinhas belas, se não forem cuidadas, secam por causa dos espinhos e de toda sorte de ervas, também os homens que, depois de receber a fé, se entregam à multiplicidade de ações ditas, se extraviam em suas inteligências e já não entendem absolutamente nada acerca da divindade. Porque, de fato, quando ouvem algo acerca da divindade, sua mente está em seus negócios, e assim não compreendem absolutamente nada. Mas os que têm o temor de Deus, e investigam acerca da divindade e da verdade, e têm seu coração voltado para o Senhor, entendem e compreendem imediatamente quanto lhes é dito, pois têm dentro de si o temor de Deus. Porque onde habita o Senhor, ali há grande inteligência. Adere, pois, ao Senhor, e compreenderás e entenderás tudo.

Arranca de ti a tristeza, e não aflijas o Espírito Santo que habita em ti, para que tua oração a Deus não seja contra ti e ele se afaste de ti. Porque o Espírito de Deus, que foi dado a essa tua carne, não tolera a tristeza nem a angústia. Assim, pois, reveste-te de alegria, que sempre encontra graça diante de Deus e sempre lhe é agradável, e compraz-te nela. Porque todo homem alegre pratica o bem, pensa o bem e despreza a tristeza. Em contrapartida, o homem triste sempre vai por mau caminho. Em primeiro lugar, faz mal entristecendo o Espírito Santo, que foi dado ao homem em alegria. Em segundo lugar, comete iniquidade ao não orar nem dar graças a Deus, pois a oração do homem triste nunca tem força para se elevar até o altar de Deus… A tristeza se instalou em seu coração, e, ao misturar-se com a oração, não permite que esta suba pura até o altar de Deus… Purifica-te desta malvada tristeza, e viverás para Deus. E igualmente viverão para Deus quantos jogarem fora a tristeza e se revestirem de toda alegria.

NOTAS

1. Visões 2, 2.3.
2. Mandamentos 4, 2-3.
3. Visões 3, 6, 6.
4. Comparações 2, 3.
5. Mandamentos 6, 2.
6. Mand. 11, 7-14.
7. Mand. 10, 1,
8. Mand. 10, 3.

Fonte: MERCABA

6. «Deixai vir a Mim as criancinhas... pois a elas pertence o reino de Deus»

O Pastor, parábola 9, 24.29

O Pastor mostrou-me uma montanha onde as ervas estavam verdes e viçosas; tudo estava florescente, e os rebanhos e os pássaros encontravam aí o seu alimento. Ele disse-me: «Os crentes daqui sempre foram simples, inocentes, felizes, sem nenhum ressentimento uns contra os outros, mas, pelo contrário, sempre alegres servidores de Deus. Revestidos do santo espírito das virgens, cheios de compaixão por todos os homens, proveram, com o suor de seu rosto, às necessidades de todos os seus semelhantes, sem murmúrio nem hesitação. Vendo a sua simplicidade e toda a sua candura infantil, o Senhor fez prosperar todo o trabalho de suas mãos e abençoou todas as suas empresas… Todos que agirem assim, permaneçam desse modo, e vossa prosperidade não desaparecerá jamais»…

Depois, ele mostrou-me uma bela montanha toda branca: «Aqui, os crentes assemelham-se às criancinhas que não têm a mínima ideia do mal; como elas, nunca souberam o que é a maldade, mas guardaram sempre a inocência de suas infâncias. Esses homens irão seguramente habitar no reino de Deus, porque não violaram os mandamentos de Deus, mas perseveraram todos os dias de suas vidas na candura e nos sentimentos de suas infâncias. Todos vós que perseverais nesta via sereis ‘como criancinhas’, sem malícia, sereis glorificados mais que todos os outros, porque as criancinhas são gloriosas diante de Deus e os primeiros aos seus olhos. Bem-aventurados os que afastarem a malícia para se revestirem de inocência; primeiro que todos os outros, vós vivereis para Deus.

7. «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»

Expulsa a dúvida de tua alma, nunca hesites em dirigir a Deus a tua oração, dizendo: «Como posso eu rezar, como posso ser escutado, depois de ter ofendido a Deus tantas vezes?» Não raciocines dessa maneira; volta-te de todo o coração para o Senhor, e reza-Lhe com total confiança. Conhecerás então a extensão de Sua misericórdia; verás que, longe de te abandonar, Ele cumulará os desejos de teu coração. Porque Deus não é como os homens, que nunca esquecem o mal; Nele não há ressentimentos, mas uma terna compaixão para com as Suas criaturas. Assim, pois, purifica teu coração de todas as vaidades do mundo, do mal e do pecado […], e reza ao Senhor. Tudo obterás […], se orares com total confiança.

Se, porém, a dúvida tomar teu coração, tuas súplicas não serão ouvidas. Aqueles que duvidam de Deus são almas duplas; nada obtêm daquilo que pedem. […] Quem duvida, a menos que se converta, dificilmente será ouvido e salvo. Assim, pois, purifica tua alma da dúvida, reveste-te da fé, porque a fé é poderosa, e crê firmemente que Deus escutará todas as tuas súplicas. E, se Ele tardar um pouco a ouvir tua oração, não te deixes arrastar pela dúvida por não teres obtido imediatamente o que pedes; esse atraso destina-se a fazer-te crescer na fé. Não cesses, pois, de pedir aquilo que desejas. […] Não te permitas duvidar, pois a dúvida é perniciosa e insensata, roubando a fé a muitos, incluindo os mais firmes. […] A fé é forte e poderosa; tudo promete e tudo obtém; a dúvida, que é falta de confiança, tudo mina.

8. «Fostes marcados com o selo do Santo Espírito: não o contristais» (Ef 4, 30)

O Pastor, 10º preceito

Quando o homem indeciso fracassa num propósito, a tristeza toma-lhe conta da alma, ela consterna o Santo Espírito e expulsa-O… Afasta, pois, do teu coração a tristeza e não apagues o Espírito Santo que em ti habita (1 Ts 5, 19), para que ele não fale a Deus em teu desfavor e te abandone. Porque o Espírito de Deus, que te foi dado na carne, não suporta a tristeza nem a perturbação.

Cobre-te de alegria e faz disso um deleite. Eis o que agrada a Deus; eis o que Ele acolhe favoravelmente. Pois todo homem alegre age bem, pensa bem e espezinha a tristeza. O homem triste, ao contrário, age sempre mal; primeiro, faz o mal porque entristece o Espírito Santo, que foi dado ao homem em alegria; depois, cai na impiedade por não orar ao Senhor e por não O louvar. Porque a oração do homem triste nunca tem força para se elevar até o altar de Deus… Tal como o vinagre, misturado no vinho, lhe adultera o sabor, também a tristeza, misturada com o Santo Espírito, enfraquece a eficácia da oração. Purifica, pois, o coração dessa tristeza perniciosa, e viverás para Deus, assim como todos os que se tiverem despojado da tristeza e coberto da alegria.


Fonte: Evangelho Cotidiano