«Eu creio, Senhor!»
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

O «Domingo do Cego»

Cristo Ressuscitou!

Neste sexto domingo após a Páscoa, a Igreja nos apresenta a poderosa narrativa do cego de nascença, aquele que, tocado por Cristo, foi iluminado não apenas em seus olhos, mas também em sua alma. O Senhor, com barro feito da terra e de sua saliva — símbolo profundo da união entre o humano e o divino — realiza uma nova criação. A terra remete à matéria da qual fomos formados; a saliva, saída da boca de Deus, representa o sopro da vida, o Espírito que recria.

Cristo, portanto, recria o homem: com o toque do Criador, aquele que nunca viu começa a enxergar — mais do que formas e cores, ele contempla a Luz verdadeira que veio ao mundo.

Neste mesmo domingo, celebramos também a Terceira Descoberta da Cabeça do Precursor, São João Batista, cujo martírio foi um testemunho vivo da Luz. O Precursor, que apontou o Cordeiro de Deus, permanece mesmo após a morte como testemunha luminosa da Verdade. Sua cabeça, outrora enterrada e escondida por causa da injustiça dos homens, é revelada mais uma vez como sinal da ação providente de Deus, que traz à luz aquilo que fora encoberto. Assim como os olhos do cego são abertos, a Igreja redescobre a presença gloriosa daquele que preparou os caminhos do Senhor, mesmo por meio de suas santas relíquias.

A festa da Descoberta da Cabeça do Precursor nos ensina que nada daquilo que é oferecido a Deus se perde no esquecimento ou nas trevas da história. Como o cego que passou a enxergar e proclamou sua fé corajosamente diante dos fariseus, também a Igreja proclama que a luz de Cristo é invencível, mesmo quando o mundo tenta escondê-la ou apagá-la.

A Luz, criada por Deus no princípio para separar o caos das trevas, é recriada na ressurreição de Cristo. Aquele que disse “Haja luz” agora diz: “Eu sou a luz do mundo”. E como no Gênesis o homem foi criado para viver nessa luz, Cristo o recria para que novamente nela caminhe, agora com olhos iluminados pela fé e com coração livre para seguir a Verdade.

Na bela oração do ofício pascal lemos:

“Tu, ó Salvador, puseste uma lei ao primeiro homem que estava na luz… Mas ele caiu daquela sua glória. Tu, no entanto, Senhor, por tua compaixão incomensurável, desceste até a nossa baixeza… iluminaste o nosso gênero humano… e por tua misericórdia restituíste à nossa natureza o seu lugar primitivo e a luz gloriosa da qual fora afastada.”

Na cura do cego, vemos o reflexo da nossa própria história. Nascemos espiritualmente cegos, mas somos lavados pelas águas do Batismo, damos à luz filhos da Igreja, como diz o próprio simbolismo do rito. Recebemos ali a vela acesa — símbolo da luz da ressurreição — com a missão de nunca a esconder, mas de irradiá-la ao mundo.

Assim como o cego se tornou discípulo e testemunha, também nós somos chamados a professar nossa fé com coragem, sem medo das consequências, pois somente Cristo lança luz sobre as trevas. Renunciar a Ele é escolher as sombras; confessá-Lo é caminhar na claridade que conduz à vida.

Por isso, que também nós vejamos. Que nossos olhos se abram para reconhecer Sua presença mesmo nas provações. Que saibamos encontrar o Senhor não apenas nas consolações da fé, mas também na escuridão das dúvidas, no silêncio das dores, e até nos sepulcros da nossa vida interior. Pois é ali que Ele brilha com mais força, como brilhou no túmulo vazio e na descoberta gloriosa da cabeça do seu fiel servo João.

O barro e a saliva ainda estão disponíveis — são os sacramentos, a Palavra, a oração, a comunidade e a Tradição viva da Igreja. Que neles, e por eles, a Luz continue a resplandecer até que todos possam ver e confessar:
“Creio, Senhor!”

Verdadeiramente Ressuscitou!

Suplemento Litúrgico

Ὡς θεῖον θησαύρισμα, ἐγκεκρυμμένον τῇ γῇ, Χριστὸς ἀπεκάλυψε τὴν κεφαλήν σου ἡμῖν, Προφῆτα καὶ Πρόδρομε. Πάντες οὖν συνελθόντες, ἐν τῇ ταύτης εὑρέσει, ᾄσμασι θεηγόροις, τὸν Σωτῆρα ὑμνοῦμεν, τὸν σῴζοντα ἡμᾶς ἐκ φθορᾶς ταῖς ἱκεσίαις σου. 

Qual tesouro divino oculto sob a terra, Cristo revelou-nos tua cabeça sagrada, ó Profeta e Precursor. Por isso, reunidos na festa do Encontro, com hinos divinos louvamos o Salvador, que nos livra da corrupção, por tua intercessão.