III Domingo da Quaresma
Domingo da Veneração da Santa Cruz
“Nós veneramos a Tua Cruz, ó Soberano, e glorificamos a Tua Santa Ressurreição”
O Mistério da Cruz no Coração da Quaresma
Chegamos ao III Domingo da Grande Quaresma. A Igreja coloca diante de nós a Santa e Vivificante Cruz do Senhor. Não por acaso, mas como um momento de respiro e fortalecimento nesta caminhada rumo à Páscoa. Como um navegante que se orienta pelas estrelas, somos convidados a fixar o olhar na Cruz — bússola da nossa fé e certeza da vitória de Cristo.
Hoje, a Igreja canta:
“Vinde, fiéis! Adoremos o Madeiro que dá a vida, no qual Cristo, o Rei da Glória, estendeu voluntariamente seus braços, restaurando em nós a felicidade primitiva.”
I. A Cruz: De Instrumento de Morte a Árvore da Vida
1. O Escândalo que se Tornou Glória
Para o mundo antigo, a cruz era instrumento de suplício, vergonha e maldição. Os romanos reservavam-na aos piores criminosos. Como escreve São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Cor 1,23). No entanto, aquilo que era sinal de ignomínia tornou-se, pela obediência do Filho, fonte de vida e salvação.
O Patriarca Bartolomeu recorda-nos:
“A Igreja deve apoiar a sua força na sua fraqueza humana, na loucura da Cruz… privada de todo poder mundano, perseguida e entregue cotidianamente à morte, a Igreja faz com que surjam santos.”
A Cruz revela a lógica divina: onde o mundo vê fracasso, Deus planta vitória.
2. A Teologia da Cruz em São Paulo
O Apóstolo das Gentes, na carta aos Gálatas, proclama: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).
Paulo compreendeu que a Cruz não é apenas um evento passado, mas uma realidade que transforma toda a existência. Pela Cruz, somos libertos do pecado, do egoísmo e da morte. Nela é selada a Nova Aliança entre Deus e a humanidade.
O Metropolita Pantelêimon de Antinoe ensina:
“O momento da maior humilhação de Cristo torna-se o momento da sua exaltação com a completude da sua missão salvífica. Através da morte do Senhor, a morte foi vencida e a vida foi concedida ao mundo.”
II. A Prefiguração da Cruz no Antigo Testamento: A Serpente de Bronze
1. O Sinal Profético no Deserto
O Evangelho deste domingo (Jo 3,13-17) traz-nos o diálogo de Cristo com Nicodemos. O Senhor recorda um acontecimento do Êxodo:
“Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que seja levantado o Filho do Homem, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).
No livro dos Números, o povo de Israel, picado por serpentes venenosas, era salvo ao olhar para a serpente de bronze erguida por Moisés. Este ícone do Antigo Testamento aponta para o mistério da Cruz:
- As serpentes que matavam são imagem do pecado e do demônio — “o dragão antigo” que envenena a humanidade.
- A serpente de bronze, sem veneno, erguida no madeiro, prefigura Cristo que, embora sem pecado, tomou sobre si a semelhança da carne do pecado.
- O olhar dos israelitas que curava era profecia da fé: quem contempla o Crucificado com fé é salvo da morte eterna.
2. Cristo, o Novo Moisés
Se no deserto a cura era temporária e corporal, em Cristo a salvação é eterna e espiritual. O Metropolita Pantelêimon explica:
“Como todos os israelitas que viam a serpente de bronze eram salvos da morte, do mesmo modo todo aquele que se volta para Cristo com fé e contempla a sua crucificação será salvo das setas mortíferas do diabo. As picadas do pecado e da morte são curadas pelas chagas de Cristo.”
O Arquimandrita Geórgios Kapsanis acrescenta:
“De fato, irmãos meus, de que outra coisa pode gloriar-se o cristão senão da Cruz de Cristo, na qual se revela todo o amor de Deus pelo homem? Um Deus é crucificado, pregado, morre, é desonrado na Cruz por amor ao homem. Que mistério de amor!”
III. A Cruz na Vida do Cristão: Negar-se, Tomar a Cruz e Seguir
1. O Chamado de Cristo
No Evangelho de Marcos (8,34-38), proclamado neste tempo, Jesus é claro:
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
O Arquimandrita Ananias Koustenis comenta:
“Cristo não força ninguém; só o mal força e violenta. Quem quer vir após mim — diz o Senhor — negue-se a si mesmo, ao velho homem e à falsa vida, tome a sua cruz e siga-me.”
Tomar a cruz não é buscar sofrimento, mas aceitar as dificuldades que surgem por seguir Cristo: as lutas interiores, as incompreensões, as renúncias, o amor aos inimigos, a fidelidade aos mandamentos.
2. Crucificados com Cristo
São Paulo testemunha:
“Estou crucificado com Cristo; já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
O Batismo já nos configurou à morte e ressurreição do Senhor. Como recorda o Metropolita Pantelêimon:
“O Batismo em Cristo significa que o cristão ortodoxo participa na morte e ressurreição do Senhor. A libertação do pecado é concedida apenas pelo santo Batismo.”
Por isso, ao sairmos da pia batismal, o sacerdote coloca a cruz no nosso peito. É sinal de que a partir daquele momento a cruz é a nossa identidade e o nosso caminho.
3. A Luta Quotidiana
O velho homem, com suas paixões e egoísmo, precisa ser crucificado diariamente. Não se trata de um ato isolado, mas de uma disposição contínua. O sofrimento, quando unido ao de Cristo, deixa de ser absurdo e torna-se participação no mistério da redenção.
Como afirma o texto do Sinaxe:
“Todo sofrimento, angústia, desespero e morte tornam-se secundários diante da magnitude da Ressurreição. O cristão ortodoxo contempla a Cruz resplandecente, mergulhado no espírito pascal: o Senhor não terminou sua missão na Cruz, mas fez dela um instrumento de passagem para se chegar à Vida.”
IV. Venerar a Cruz: Atitude de Fé e Testemunho
1. O Sentido da Veneração
Venerar a Cruz não é um ato mágico nem uma repetição vazia. É reconhecer que nela está a nossa salvação. O hino da festa proclama:
“Hoje a Cruz é exaltada e o mundo se liberta do erro. Hoje renova-se a ressurreição de Cristo, regozijam-se os confins da terra.”
Na Cruz, renova-se a Ressurreição! Por isso, os orientais veneram a Cruz gloriosa e vivificante, despida de sentimentalismos mórbidos. A Cruz é árvore da vida, não instrumento de morte.
2. O Sinal da Cruz na Vida Diária
O texto grego do Kyriakodrómio ensina-nos a fazer o sinal da Cruz com reverência e consciência:
- Unimos três dedos: profissão da fé na Santíssima Trindade.
- Os dois dedos na palma: as duas naturezas de Cristo.
- Testa: consagramos a Deus os pensamentos.
- Ventre: oferecemos os desejos e sentimentos.
- Ombros (direito e esquerdo): toda a atividade corporal pertence a Deus e pedimos ser colocados à direita com os justos.
“Usemos quanto possível o sinal da Cruz corretamente, para glória do Deus Triúno e para nossa santificação”
— exorta-nos o texto.
3. Não nos Envergonharmos da Cruz
Num mundo que muitas vezes despreza ou ridiculariza a fé, somos tentados a esconder a nossa identidade. O Arquimandrita Ananias adverte:
“Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc 8,38).
Não nos envergonhemos! A Cruz é a nossa glória, a nossa esperança, o nosso único orgulho. Como diz São João Crisóstomo:
“A Cruz é a causa de salvação para os que creem e de perdição para os que a rejeitam.”
V. Maria e João aos Pés da Cruz: Modelos de Contemplação
O Sinaxe recorda-nos:
“Nossa postura frente à Cruz e ao sofrimento humano deve assemelhar-se à postura de Maria e à de João, o discípulo do amor. Estavam em pé diante do Crucificado, contemplando Aquele que era a Ressurreição e a Vida. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, conservavam tudo isso no coração.”
Maria e João não fugiram. Permaneceram. Não procuravam explicações racionais para o sofrimento; confiavam no mistério. A sua presença aos pés da Cruz ensina-nos que a verdadeira sabedoria não está em compreender tudo, mas em permanecer com Aquele que amamos, mesmo quando tudo parece trevas.
O Arquimandrita Geórgios Kapsanis sublinha:
“A Virgem Maria foi a primeira, depois do Senhor, a viver o mistério da Cruz de Cristo. Aliás, é representada de pé junto à Cruz de Cristo.”
VI. Aplicações Pastorais para a Comunidade
1. Exame de Consciência sobre a Própria Cruz
Nesta semana, cada fiel é convidado a perguntar-se:
- Qual é a minha cruz hoje?
- Tenho fugido dela ou a carrego com paciência, unindo-a à de Cristo?
- Em que aspetos da minha vida ainda preciso morrer para o pecado?
2. A Cruz como Sinal de Comunhão Fraterna
A Cruz não é apenas um fardo individual. Na comunidade, somos chamados a ajudar-nos mutuamente a carregar as cruzes.
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2).
O apoio fraterno, a escuta, o perdão — tudo isso é participar na cruz do irmão.
3. A Devoção à Cruz na Família
Incentivar o sinal da Cruz feito com reverência antes das refeições, ao sair de casa, ao deitar. Ter uma cruz num lugar visível da casa. Rezar em família:
“Veneramos a tua Cruz, ó Mestre, e glorificamos a santa tua Ressurreição.”
4. Acolher o Sofrimento com Fé
Quantos em nossas comunidades enfrentam doenças, solidão, desemprego, luto! A Cruz lembra-nos que o sofrimento não é castigo, mas lugar de encontro com Cristo. Podemos visitar os doentes, rezar com os aflitos, levar a comunhão aos que não podem ir à igreja — assim estamos com eles aos pés da Cruz.
VII. Conclusão: Da Cruz à Ressurreição
Irmãos e irmãs, a Cruz não é o fim. Ela é caminho para a Luz. É porta da Páscoa. Por isso, a Igreja nos faz venerar a Cruz no meio da Quaresma: para que não desanimemos, para que saibamos que o sofrimento oferecido a Cristo gera frutos de ressurreição.
“Nós veneramos a tua Cruz, ó Soberano, e glorificamos a santa tua Ressurreição.”
Este é o grito da nossa fé. Não separamos a Cruz da Ressurreição. O mesmo madeiro que sustentou o Corpo sem vida é o trono donde brota a Vida.
O Metropolita Pantelêimon conclui:
“Hoje a nossa Igreja Ortodoxa honra a Exaltação da Santa Cruz. Recordemos o que o Senhor sofreu por nós na Cruz. Coloquemo-nos diante da Santa Cruz com humildade e ofereçamos a Cristo, como dom de gratidão pela nossa salvação, os nossos pecados… Derramemos lágrimas pelas nossas faltas.”
Que a Santa Cruz nos fortaleça nesta Quaresma. Que ela seja o nosso refúgio, a nossa força e a nossa esperança. Que, contemplando-A com fé, possamos chegar à alegria da Ressurreição e, um dia, ouvir dos lábios do Senhor:
“Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25,34).
Referências bibliográficas e obras consultadas
- BARTOLOMEU, Patriarca Ecumênico. Entrevista à revista 30 Dias (excerto citado em material homilético). Apud IRINEO, D. Subsídios homiléticos — Domingo da Veneração da Santa Cruz.
- DE FIORES, Stefano. Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Paulinas, 1989.
- GREEK ORTHODOX ARCHDIOCESE OF AMERICA (GOARCH). Sunday of the Veneration of the Holy Cross / Third Sunday of Great Lent (apresentações catequéticas).
- ORTHODOX CHURCH IN AMERICA (OCA). Scripture Readings — Third Sunday of Lent: Veneration of the Cross (Hb 4,14–5,6; Mc 8,34–9,1).
- KAPSANIS, Georgios (†), arquimandrita, ex-higúmeno do Mosteiro de Gregoriou (Monte Athos). Κυριακή προ της Υψώσεως του Τιμίου Σταυρού (texto atribuído/indicado como 1981; publicação online consultada).
- ΠΑΘΑΝΑΣΙΟΣ (site). Κυριακοδρόμιο — Κυριακή προ της Υψώσεως του Τιμίου Σταυρού (reflexão catequética, tipologia da serpente de bronze e exortação à reverência no sinal da Cruz).
- ΠΑΝΤΕΛΕΗΜΩΝ, Μητροπολίτης Αντινόης. Κυριακή προ της ύψωσης του Τιμίου Σταυρού (ΟΡΘΟΔΟΞΕΣ ΟΜΙΛΙΕΣ, τ. 49; publicação online consultada).
- KOUSTENI, Ananias (†), arquimandrita. Το κήρυγμα της Κυριακής. Τόμος Α΄, p. 144–147 (trecho fornecido no material do usuário).
- IRINEO, D. (Bispo de Tropaion). Subsídios homiléticos — Domingo da Veneração da Santa Cruz; Ecclesia/Byblos, 16 mar. 2023.
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Apolitíkion da Santa Cruz (Modo 1º)
Σῶσον, Κύριε, τὸν λαόν σου καὶ εὐλόγησον τὴν κληρονομίαν σου, νίκας τοῖς βασιλεῦσι κατὰ βαρβάρων δωρούμενος, καὶ τὸ σὸν φυλάττων διὰ τοῦ Σταυροῦ σου πολίτευμα.
Salva, Senhor, o teu povo e abençoa a tua herança. Concede à tua Igreja a vitória sobre o mal (sobre os seus adversários) e guarda o teu povo pela tua Cruz.


